quinta-feira, 8 de abril de 2021

O que há por trás das máscaras

 


O uso da máscara é o símbolo mais visível do quanto  a  nossa vida mudou. Ela está, literalmente, na cara. Nos lembra dia a dia, segundo a segundo, com cada indivíduo que cruzamos, a transformação do último ano. Se já nos demos conta disso, e já adaptados, é hora de refletir a liberdade que nos roubou. Não a de ir e vir, mas a de ver, olhar e conhecer as pessoas a nossa volta.

Há dois aspectos a serem pensados. Primeiro, perdemos a liberdade ver rostos, conhecer o semblante real das pessoas, identificá-las tristes ou alegres. Segundo, ganhamos na fantasia. Podemos imaginá-las como queremos e não como realmente são. Isso me remete ao mistério das máscaras de Veneza. Porém  o resultado pode nos causar frustração ou admiração dependendo do que encontramos por trás delas.

Algumas situações reais aconteceram comigo observando pessoas que conheci ao longo deste período de pandemia. A primeira delas foi num consultório médico onde a mesma secretária de outras vezes me atendeu. Em determinado momento ela afastou a máscara do rosto para beber água e notei a boca perfeita e desenhada que tinha. Pensei: “que rosto lindo essa moça tem”. Embora não fosse a primeira vez que a via nunca havia percebido isso. E me dei conta de que nem poderia, afinal nunca a vi sem máscara.

No dia seguinte, na academia, enquanto fazia aquecimento de bicicleta, lá do alto das imensas janelas de vidro, que vão do piso ao teto, vi meu personal trainer chegando de moto. Ele me cumprimentou com um abano de mãos e sorriu. Na sequência cobriu o rosto com a máscara para entrar. Me surpreendi mais uma vez. Desde que o conheci, há cerca de 6 meses, nunca havia visto o seu sorriso, aliás, muito bonito.

Desde dezembro de 2020, quando o querido amigo Eugênio trocou a vida do Brasil pela da Inglaterra, me vi obrigada a trabalhar com outro motorista de táxi, em algumas situações de necessidade. Edson, o atual profissional, a quem recorri durante esta semana, comentou quando entrei no carro que me viu na praia um certo domingo. “Mas a senhora não me reconheceu”disse ele. Pedi desculpas justificando que provavelmente era porque o conhecia somente usando máscaras.

Ao comentar esses fatos com a jornalista Fernanda de Lourdes Pereira,  esta relatou que na empresa em que trabalha, vive situação semelhante. “Não conheço o rosto dos funcionários novos que trabalham comigo” afirmou.

A circunstância se inverte. Se um dia dissemos: encontro pessoas e não as reconheço porque estão de máscara, hoje é possível não reconhecer, sem máscara, aquelas que conhecemos em pleno uso delas.

Compreensiva com a questão da necessidade atual, percebo que nada torna um rosto mais impenetrável do que uma máscara. Escondemos qualquer sentimento: a alegria, a tristeza, a dor, o prazer. Embora com o objetivo de nos proteger elas ofuscam nossa beleza e nosso sorriso.


A finalidade do uso de máscaras é infinita. Quase sempre serviram para as pessoas esconderem algo, se protegerem em atitudes suspeitas, ou até mesmo para criarem coragem: “Quanto mais o homem fala de si, mais deixa de ser ele mesmo. Dê-lhe uma máscara e ele dirá a verdade”. Oscar Wilde. Nesse caso, é preciso estar atento porque a máscara pode estar invisível aos nossos olhos.


A história conta que o uso de máscaras é uma prática milenar. Antigas civilizações como a China, Grécia, Egito celebravam a vida ou a morte em cerimônias  trajando fantasias com máscaras. Ela também foi adotada pelo homem primitivo em rituais para afastar maus espíritos, para práticas de orações e cura. Em relação ao uso para a cura, podemos concluir que nada mudou.


O uso deste acessório no dia a dia, pelos orientais, vem desde há muito tempo, bem antes de se falar em pandemia. Nas grandes cidades ou por todo o mundo é comum vê-los de máscara. Por mais que a neguemos, chegou a vez dos ocidentais a adotarem no seu cotidiano. 


Sem tradição, por gosto ou por desgosto, ela esconde nossos rostos, há mais de um ano, e assim nos desconhecemos uns dos outros.


Legenda de foto para acesso do deficiente visual. #pracegover.  Arte de Leticia Rieper.

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Um comentário:

@islandtricot disse...

Adorei o texto, misturou sentimentos, história, estórias... Dá até uma beleza poética em meio ao caos... eu já acostumei a usar, mas nao me acostumei a ver todos na rua usando. Parece um filme!