quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Setembro chegou e com ele seis meses de pandemia - Parte 2

 


O emocional em pandemia.

O tempo bom continuava zoando com a nossa cara. As semanas passavam e com elas os fins de semana sem poder ir para rua. Não lembro de ter vivido uma sequência tão longa de dias de sol, próprios para a praia, quanto naqueles meses de março e abril de 2020. Foi um período de alertas de economia de água dada a escassez por falta de chuva. Algo inusitado para uma cidade como Joinville, onde o tempo chuvoso predomina. A estiagem parecia querer nos lembrar de que não deveríamos reclamar tanto dos dias de chuva.

Sem falar das encantadoras noites estreladas. Estudos sobre o meio ambiente e condições climáticas mostravam que a redução do trânsito de veículos baixaram os índices da poluição do ar e com isto o céu exibia a sua magnitude estelar. Em tempo em que olhamos mais para o celular do que para o céu, passamos a dar importância em procurar as tais "estrelas que riem", segundo o Pequeno Príncipe.

Passados os primeiros dias de isolamento, quando achávamos que seriam os únicos, me dei conta de que não havia sido contaminada. Cumpri o protocolo de ficar dentro de casa, sem contato com o mundo externo. O sentimento que deveria ser de alívio me causou pânico. Era uma contradição, mas real. Eu estava salva e com o mundo inteiro em pandemia, sair à rua significava me contaminar. Senti verdadeira paúra. Chorei de medo diante desse pensamento. Mais do que nunca deveria me preservar. A euforia acabou, a motivação para ficar em casa se foi e a esperança pela retomada da normalidade também.

Por sorte, naquela manhã conversei, por telefone, com um médico geriatra, amigo de Curitiba. "Estou me sentindo muito mal", disse enquanto relatava o que sentia, e ele me incentivou a sair e dar uma caminhada na quadra, tomar sol. "Vai ser mais difícil curar você de depressão do que do coronavírus", afirmou enquanto conversava sobre outros assuntos para desviar a minha atenção.

Naquele dia tudo parecia corroborar para agravar o meu estado emocional. Foi divulgada a notícia da morte, em Joinville, de um empresário de 68 anos. Embora não o conhecesse, sabia quem era e a associação da idade dele com a minha foi desastrosa. Pior ainda, saber do internamento na UTI, em estado grave, de um amigo dos meus filhos. Foi aterrorizante. A pandemia estava muito mais perto de nós do que imaginávamos. Daí cadê coragem para sair na rua mesmo que por recomendação do amigo médico. 

Com os filhos Vinícius e Bernardo falava todos os dias. Fiquei mais preocupada com o Bernardo, que por ser médico veterinário mantinha o trabalho e contato com as pessoas na clínica. Enquanto o Vinícius continuava com as suas atividades de dentro de casa. Com a sensibilidade à flor da pele, naquele dia, não tive coragem de telefonar e só mandei mensagem. Sabia que iria chorar e deixá-los preocupados. Passado algum tempo a videoconferência foi a forma mais fácil de comunicação visual e de conversa. Do almoço do dias das mães não abrimos mão. Comemoramos em família.

Nesse meio tempo comecei a perceber que os piores dias, para mim, eram as segundas-feiras. Acordava chorona, abatida, desanimada. Mais uma semana iniciava e eu não podia sair, não podia fazer as atividades de trabalho, ou as atividades físicas diárias. Não conseguia, como ainda hoje, ter disposição para me exercitar com aulas online. Acordava por volta das 7h30 tentando manter uma rotina seguindo orientações dos médicos e psicólogos. Mas essa rotina de acordar e não ter o que fazer não era a minha e por isso era uma situação que tanto me abatia.

Mais do que nunca a interação com terapeutas passou a ser considerada como de primeira necessidade. Foi quando a minha terapeuta começou a me dar atendimento por telefone. E isso foi muito importante, eu estava realmente entrando em um processo de grande tristeza. Enquanto conversávamos eu chorava e como sempre ela me trazia à realidade. "Suas preocupações tem fundamento" dizia ela, "mas não podemos nos afundar".

Quando relatei o medo de sair de casa, ela me perguntou o que eu teria para fazer na rua que não pudesse ser adiado. Respondi: nada. "Então é uma possibilidade que você tem de ficar em casa, diferente de tantas pessoas que não podem e estão se arriscando".Ela me  acalmava.

Sobretudo, a tristeza do isolamento era a reclamação que mais se ouvia. O clima que pairava no ar era denso. Todos carentes da presença física dos filhos, dos netos, dos amigos. Começava a correr notícia de pessoas com síndrome do pânico. Recordo de ter falado com uma pessoa que me perguntou: "Que dia é hoje?". Isso me impactou.

As notícias chegam por vários canais.

O que mais alterava meu estado de ânimo era estar reclusa para evitar a disseminação do vírus e assistir de dentro de casa ele se alastrando por toda cidade, para não falar do mundo. Informações chegavam a mim e não só pelos noticiários. Uma prima, que mora na Espanha, outra nos EUA, amiga da Alemanha, todas relatavam a pessimista realidade que estavam vivendo por lá. Um horror.

A orientação do psiquiatra Primo Paganini, em entrevista a CNN, naquele momento, me pareceu razoável: "Não levem as preocupações para daqui a 1 ou 2 meses, concentrem-se no hoje, no máximo amanhã". Ele se referia ao tempo, e eu decidi limitar também ao espaço da minha casa, minha família e não levar nossas preocupações para muito longe de nós. Um, dois meses, naqueles início já era uma previsão de futuro muito grande. Ninguém podia imaginar em cinco ou seis meses como estamos até hoje.

Nessa época, já estava me sentindo enganada, e hoje resta a comprovação. Foi muito dinheiro desperdiçado, usado indevidamente e para corrupção. As orientações eram para que deixássemos de assistir aos noticiários. Nossa atenção, passou a se concentrar nos boletins oficiais gerido pelo então Ministro Luiz Henrique Mandetta. A diferença entre as notícias e os informativos, não sei. Um era mais aterrorizante do que o outro, mas acreditávamos em Mandetta, que no decorrer da pandemia, tornou-se uma grande decepção.

Mudança de comportamento.

Foi um período em que fiz uma campanha para que conversássemos mais por telefone do que por troca de mensagens de WhatsApp. Reconheço que não obtive a adesão que pretendia. O hábito de teclar está mais enraizado nas pessoas do que elas imaginam. Mandar figurinha tornou-se mais eficaz e rápido. Um só emoji diz mais do que muitas palavras. Mesmo assim com algumas pessoas eu utilizei mais o telefone ao contrário de mandar mensagem.

Foi com um telefonema que a história da Hildinha, uma amiga de 78 anos,  não poderia ser resolvida se tivesse ocorrido por mensagem. Aliás, um recurso que ela não se habitua a usar.

Como tantas outras vezes, passamos horas ao telefone e ela me contou, muito incomodada, que não conseguia entender como uma caixa de fósforo apareceu em cima da mesa da cozinha. "Ninguém entrou aqui em casa, eu não uso fósforo para nada, como isso veio parar aqui" e completou: "Estou muito 'aperreada' com isso" disse ela com o seu forte sotaque nordestino.

Meu conselho foi para que ela jogasse a caixa no lixo imediatamente. Porém, inconformada, sem uma explicação plausível e resistente a minha recomendação, disse que "não, até descobrir como aquilo foi parar na mesa". Estamos num processo de confinamento, se jovens estão confusos, imagina os idosos. Não desacredito em nada do que a minha amiga contou, porque sei que ela é 100% lúcida. Mas confusão mental qualquer pessoa pode ter.

Na dúvida, entre se ela se confundiu, se foi abduzida dentro de alguma crença espiritual, se brincadeira ou não, fiquei preocupada e dei outra opção. Pedi que tirasse todos os palitos de dentro da caixa e colocasse dentro de um copo com água. "A caixa vazia", continuei "deixe no mesmo lugar em que você a encontrou, assim você continua o trabalho mental de procurar a explicação que procura". Ela assentiu, mas até hoje não sabe o que aconteceu.

Na continuidade o distanciamento foi perdendo o seu rigor. Mesmo aquelas pessoas que se mantinham distantes das academias, dos restaurantes, e do convívio com amigos, passaram a ter contato pessoal com a família. Muito antes disso, contrariando as orientações, passei a visitar amigos que sabia estavam se cuidando tanto quanto eu. Em busca de espaço para me movimentar aceitei o convite do Ricardo e passei a ir para a fazenda. Lá eu tinha com quem conversar, lugar para grandes caminhadas e boa companhia.

O que estava ruim para nós, ficou pior quando, por decreto, o prefeito de Joinville voltou a determinar algo como um lockdown para o idoso. A proibição de frequentar qualquer espaço público veio com o Decreto 38.520/2020 e provocou muitas manifestações de desagrado. "A saída que que temos é agir na clandestinidade": dizíamos tentando manter o bom humor e nos encontrando, em grupos de no máximo três pessoas, nas nossas casas.

Mais tempo longe das atividades rotineiras e com alguns quilos a mais, segui o conselho de uma amiga e deixei de lado as confortáveis calças largas e as do tipo legging usadas no dia a dia. Ela, cumprindo expediente em home office, confessou: "Mesmo dentro de casa só uso calça jeans. Elas me deixam em estado de alerta sobre o meu peso." Dito e feito. Foi uma grande mudança, inclusive sobre o meu emocional. Andar desarrumada não faz parte da minha rotina.

Lives, a alegria do povo

Ah! Como elas foram importantes. Verdadeiras companheiras dos fins de semana. Começaram mansas e despretenciosas e se tornaram mega eventos. O único objetivo era arrecadar fundos aos necessitados da pandemia. Para isso bastava, um violão e um microfone, no máximo uma mesa de som. Aos poucos se transformaram em shows grandiosos capaz de suprir o ganho dos músicos, da equipe técnica e mais do que qualquer coisa, em cachês milionários para os artistas.

As primeiras das quais tenho lembrança foram as do Bruno & Marroni e Gusttavo Lima. Realizadas, ao estilo fundo de quintal, na churrasqueira a beira da piscina de suas belas moradias. Sem maiores cuidados, se apresentavam de bermuda e chinelo e verdadeiramente se sentindo em casa, beberam muito e por isso receberam duras críticas diante de tal comportamento.

Após este infortúnio, ajustada a proibição de ingestão de álcool durante as apresentações, os grandes nomes de empresas de bebidas, entraram firme no patrocínio e se adonaram dos cenários sobre o palco, como moldura para os artistas. Assim começou um grande desfile de importantes nomes da música brasileira a cantar para cada um público sentado no sofá da sala.

Em casa, de verdade, assistimos Sandy & Junior, Os Menotti, Marília Mendonça, Fafá de Belém, Ivete Sangalo. A medida que nomes famosos se organizavam para as suas lives, outros iam anunciando eventos futuros, em dias e hora diferentes de forma que uma não atrapalhasse a outra. A primeira grande live, estruturada como um evento foi a dos Amigos: Xitãozinho e Xororó, Leonardo, Zezé Di Camargo e Luciano. Lembro até, da situação de constrangimento de Xororó diante das palavras descontraídas e alguns palavrões do irreverente Leonardo.

O que não faltou nessas lives, no papel de acompanhante, foi o vinho, o espumante, o gim e a cerveja. Muita cerveja, para a alegria das lojas de conveniência e entrega de delivery. Bebemos muito. comemos muito e engordamos muito. Toda uma alegria convertida depois em problema. Muitas vezes tive uma espécie de ressaca moral. Coisa mais degradante beber sozinha. A euforia inicial era boa a conscientização no dia seguinte, não.

Uma vez que eu acompanhava a programação das lives, enviadas pela minha sobrinha Taís, tratava de repassar para os grupos de amigas. Lembro de certa vez, ao fazer a indicação da apresentação de Sérgio Reis, e em outra ocasião a de Diogo Nogueira, ambos enchendo de alegria os nossos solitários almoços de domingo, ter ouvido de uma amiga: "Minha mãe disse que não sabe o que seria dela sem as indicações das lives que a "Quel" faz". O comentário nos fez rir, afinal é ela quem cuida da mãe dia e noite, mas sou eu que a salvo.              

Impossível enumerar todas as lives. Algumas aconteciam pelo YouTube, outras pelo Instagram, Facebook. Houve uma explosão de transmissões ao vivo sem precedentes. Quem poderia imaginar que um dia iríamos assistir shows ao vivo sem pagar ingresso. Inspirado nos cantores outras aconteceram e não só de música, foi uma derrame de palestras, aulas, compra e venda, consultas médicas, reuniões governamentais, empresariais. A pandemia fez o mundo se transformar em realidade virtual.

Legenda de foto para acesso do deficiente visual. Montagem de foto com calendários de março a setembro, relógios e eu representando o blog olhando para as imagens com o sentido de ver o tempo passando. Cor predominante: roxa. Arte de Leticia Rieper.

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quinta-feira, 17 de setembro de 2020

OUM KALTHOUM CAFÉ


Oum Kalthoum (1898-1975) foi uma cantora, compositora e atriz egípcia, conhecida como a Estrela do Oriente. Mais de três décadas após sua morte, ainda é considerada uma das cantoras mais famosas e ilustres da história da música árabe do século XX.

As fotos foram feitas em um bar que leva o seu nome, no centro da cidade de Luxor. Como em todos os bares e restaurantes do Egito, no Oum Kalthoum só é servido chá, uma bebida tradicional e mais apreciada do que o café

Por outro lado, quebrando as tradições, é um dos poucos lugares públicos que aceita mulheres fumando. Esta não é uma prática comum no naquele país. A visita foi feita em companhia do guia Ahmed Gamal El Din e servido um chá para dois.

 



Legenda de foto para acesso do deficiente visual. 1 - Foto de Oum Kalthoum em tamanho tomando quase que a parede inteira, rodeada de outras fotos de artistas e visitantes no bar. Há mesas para duas ou quatro pessoas e as cadeiras são na cor verde e azul. 2 - Foto de um mulher fumando narguile sentada na mesa encostada na parede. 3 - duas xícaras de chá com folhas de hortelã e o açucareiro sobre a mesa.

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quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Decanter e encante



Parece uma jóia tamanha é a delicadeza da peça. Mas é somente um decanter. Colocado em uso sugere elegância ao naturalmente sofisticado ato de beber vinho. É o mesmo prazer com mais requinte.

Vinoglobe é o nome dele. Um decanter de vidro, feito à mão. Criado para ser colocado na garrafa é a forma mais prática de decantar e servir o vinho ao mesmo tempo. É possível derramar sem derramar e ter o seu vinho decantado copo a copo, sugere a descrição do produto. 

A compra se deu por indicação, elogiável, do guia William Mendes, quando da visita na Bouchard Ainé & Fils, em Baune, na França. Conhecer a cave, fundada em 1750, e fazer uma degustação de vinhos fazia parte da programação da viagem realizada em 2019.

Adequado para vinho tinto, vinho branco e rosado. Por sua facilidade de uso, seu tamanho pequeno torna-o ideal para uso em restaurantes ou em casa.


Copo de vinho gravado com o nome da cave.

Vídeo do site sobre o uso do decanter

 


Legenda de foto para acesso do deficiente visual. 1 - Montagem de foto com a imagem do decanter e o uso na garrafa. Sobre ela a ideia de vinho respingado. Escrito em vermelho e preto o título do post. Arte de Leticia Rieper. 2 - O decanter sobre uma toalha de pequena e a embalagem sobre a mesa. 3 - Caixa da embalagem com a instrução de como usar o produto. 4 - Quadro com o nome e fotos da cave localizada na entrada do portão de acesso. 5 - Copo gravado com o nome da cave.

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sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Setembro chegou e com ele seis meses de pandemia - Parte 1

 


Março de 2020
 
Data que marca o início, no Brasil, da maior quarentena vivida no mundo, e em todos os tempos, por conta da pandemia do coronavírus. Dias assustadores. As declarações das autoridades eram, ditas por eles mesmos, sem nenhum conhecimento científico. Qualquer relação que se fizesse com a Peste do Século XVII, a gripe espanhola em 1918, a gripe suína, a A1N1 parecia água potável escorrendo pelo ralo na opinião dos especialistas, historiadores, classe médica. Políticos? Nem se fala.
 
Para alguns mais para outros menos. Para mim são 180 dias, desde então, ou seis meses, de afastamento social. Este é um relato que faço a partir de anotações pessoais desde a primeira semana de pandemia. A ideia era escrever um diário, bem ao estilo "Meu querido diário" com uma única publicação quando tudo terminasse. Mas o tempo continua passando e esse tal momento parece não chegar.

Escrever foi uma forma de passar por todo esse período. Publicar pode servir de exemplo, consolo, identificação, sentimentos comuns ou não. É "textão" e o leitor não chegar ao final é um risco que sempre corro. A única certeza que tenho é a de que se eu me demorar muito em publicar, a probabilidade de achar pouco interessante os meus escritos e colocá-los no esquecimento é grande.

 

Assim começou

 

Fez-se um silêncio ensurdecedor na cidade. Só se ouvia um barulho constante: o das motos de delivery. Todas as pessoas ficaram dentro de casa e mesmo sem vê-las sabia que estavam, assim como eu, de olhos arregalados e assustados grudados na televisão e celular.
 
Do alto do 11º andar eu olhava a rua Otto Boehm, uma das vias mais movimentas da cidade, e ela estava completamente vazia. Ninguém ia para o trabalho, nenhum carro transportava crianças para a escola, ninguém caminhava fazendo exercício. As calçadas passaram a ser um espaço permitido apenas para os donos de cachorros. A estes sim, por conta dos seus animais, era permito andar na quadra para os pets fazerem suas necessidades. Justo.
 
Crianças, adultos e idosos. Todos, sem exceção, tinham de se trancafiar em casa. Entre os adultos, um deles, sempre o mais jovem, era escolhido para ir ao supermercado ou farmácia, se necessário. O medo tomava conta. Tive a impressão que algumas pessoas com quem cruzei por entre as gôndolas, no interior desses estabelecimentos, evitavam até de me olhar. A ordem era não chegar perto. Acho que faziam isso para evitar a aproximação e pensava comigo mesma que olhar e dizer bom dia não contaminava.
 
Na padaria em frente a minha casa a fila se formava na calçada. De olhos baixos para o celular, as pessoas entravam e saiam sem nem cumprimentar as atendentes. Falavam o necessário e num tom de voz baixo. O silêncio era absoluto. Os olhares não se cruzavam. Pareciam não querer serem notadas.
 
Voltar para casa, depois de qualquer tarefa, significava cumprir um ritual: tirar a roupa apressadamente e jogá-la na máquina de lavar. Na sequência, ir para o chuveiro tomar banho completo. Enquanto isso, outro membro da família lavava todos os produtos trazidos da rua antes de usar ou guardar no armário. Do que se lia nos grupos de WhatsApp, parecia haver uma concorrência amigável entre aqueles que contavam com mais orgulho, de si mesmo, sobre a dedicação com que cumpriam a missão.
 
Entre os mais aplicados havia quem, se bem apurado, confessaria que lavava até o que ia para o lixo. Um ato aplicado às sacolas de supermercado reaproveitadas na lixeira da pia ou do banheiro. Isso não escondiam e se vangloriavam enquanto relatavam coisas assim.
 
Houve também um certo descontrole e insegurança entre aqueles que por mais que as autoridades tivessem avisado de que não aconteceria desabastecimento queriam comprar todo o estoque disponível da loja. O serviço prestado pelas redes de supermercado passou a ser qualificado de acordo com a higienização dos carrinhos de compra, disponibilidade de álcool gel na entrada e controle da quantidade de pessoas no interior do estabelecimento.


Falsa euforia

Creio que a princípio todos achavam que realmente tudo aconteceria e se resolveria em 15 dias. Sem a menor noção de tudo o estava por acontecer, uma falsa euforia tomou conta de todos. Na primeira semana parecíamos de férias. Não ter hora para dormir ou acordar era uma oportunidade sem precedentes, autorizada pelos patrões, abonada pelo governo e atestada pelos médicos.

A sensação de ganhar uma folga extra estava consolidada em decretos. A excitação nos primeiros dias era tão grande que centenas de pessoas entenderam que ir à praia era a melhor opção. O tempo colaborava. Os lindos dias de sol que brilhavam eram convidativos para se "refestelarem" na areia. A incompreensão dessas pessoas fez prefeitos e autoridades correr com carro de som pedindo para que fossem para casa. Um caos se formou e a solução foi proibir a entrada de turistas nas cidades balneárias.

O assunto tomou as 24 horas do dia nos noticiários, nos programas televisivos, redes sociais e WhatsApp. Só não tomou conta das conversas de bar, já que todos foram fechados e proibidos de frequentar. O que reverberava era o #ficaemcasa. E em casa comemos, bebemos e engordamos.  E assim continua.
 
As noites na pandemia 
 
A cena era de terror vista apenas em filmes. Em contrapartida as noites eram lindas. Nem em época natalina os prédios ficavam tão iluminados. Das janelas laterais do prédio onde moro, é possível observar o bairro Atiradores e os edifícios pareciam árvores de Natal gigantescas. Enquanto as casas lembravam os presentes colocados sobre este símbolo do natal. Podia até ser confundida com uma tal felicidade. Como ninguém saía de casa não dava para se sentir sozinho como normalmente acontece nos fins de ano quando famílias inteiras viajam. Ainda assim não dava para sentir como se estivéssemos vivenciando os melhores dias de vida.

Como única opção fizemos disparar, involuntariamente, a audiência da Netflix. Filmes e séries, acompanhada de vinho, superou todas as expectativas, principalmente a minha, que sempre detestei séries. Depois vieram as lives. Estas salvaram muitas das minhas noites e fins de semana. As primeiras foram feitas em abril, mas sobre este assunto deixo os detalhes para contar mais tarde. Fiquemos, por enquanto com as séries.

Penso que o sucesso de uma série está em prender a atenção com o enredo, uma amarração perfeita, personagens sedutores e episódios com finais impactantes. É preciso levar o espectador a querer saber o que vai acontecer, fazendo-o procrastinar qualquer outra atividade, quase como um vício. Por falta desse tempo, a sensação agoniante de que são histórias que nunca terminam, sempre me mantive afastada delas. Mas naqueles dias, tempo era o que não me faltava e sucumbi à elas.
 
Entreguei-me aos seus excitantes capítulos e assisti algumas das mais famosas, em audiência e em quantidade de temporadas. Entre elas The Game of Thrones, disponível no Now. Foram 8-Temporadas de 73-Episódios, com duração que varia de 50 a 82 minutos cada um. Incrível o poder que eles tiveram de me manter o equivalente a  3 dias, se contadas as horas ininterruptas, entre figurinos belíssimos, cenários espetaculares e personagens mais ainda. Mas só com a compreensão de ser um retrato de época, associado à histórias fantasiosas, é possível assistir até o final devido às cenas de violência extrema.

Passei o tempo também com a belíssima, não menos violenta, e ainda não encerrada Outlander. As 5-Temporadas de 67-Episódios de 50 a 90 minutos, em média, cada um, me envolveram outras 67 horas entre o amor de James e Clair, os personagens principais. 
 
Porém nenhuma me encantou mais do que The Black List e seu protagonista Raymond Reddington, interpretado por James Spader. Foram 7-Temporadas de 152-Episódios e 45 minutos cada um. Os detalhes desta série já foram postados no blog SuperLinda. Resta aqui, acrescentar a observação sobre a surpresa do último capítulo, da sétima temporada feita pelo jornalista @profeBorto "Profissionais de três continentes se uniram para terminar a série criando personagens digitalizados. Foi uma demonstração de respeito com o público".
 
E seguiram outras tantas intercaladas entre filmes e alguns documentários: Catedral do Mar, Nada Ortodoxa, The English Games, Chesapeak Shores, Toy Boy, Anne com E, Chamas do Destino, e eu reflito assim como em muitos momentos desta pandemia. Quanto tempo perdido! Entretenimento tem a ver com entreter, distrair e não fazer disso uma opção de vida.

Assisti a todas sem a sensação de prazer e sim com a preocupação de buscar algo para afagar a solidão que sentia. Algo que fizesse eu esquecer que estava confinada. E assim permanece.

Legenda de foto para acesso do deficiente visual. Montagem de foto com calendários de março a setembro, relógios e eu representando o blog olhando para as imagens com o sentido de ver o tempo passando. Arte de Leticia Rieper.

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quinta-feira, 27 de agosto de 2020

Lembranças e memórias: Casarão Gallotti - Tijucas SC

 


O casarão Gallotti, em Tijucas - SC, foi incluído no caderno “Cidades patrimônios de Todos” do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Santa Catarina, "como exemplo de boas práticas na preservação, restauro e conservação do patrimônio histórico", publicado no site de notícia TopElegance. 

O fato é importante e com ele lembranças de infância voltam a minha mente. Ainda é clara a imagem que tenho da Dona Chiquinha Gallotti, sempre usando roupas pretas, debruçada sobre a grade de ferro, servida de proteção, no alto da escadaria do famoso casarão.

Não havia quem passasse pela rua, de carro ou a pé, que não a cumprimentasse chamando apenas de D.Chiquinha. Seus filhos e netos eram também amigos de meus pais, meus e de meu irmão. Era uma residência em que a porta da frente estava sempre aberta. Qualquer um que chegasse, percorria o longo corredor da entrada até a cozinha, localizada nos fundos. Sobre o fogão e na mesa nunca faltava um bule  de café e as inesquecíveis rosquinhas e broas de fubá ou polvilho feitas por ela.

Este era um trajeto que fazíamos normalmente indo e vindo de onde nós morávamos até a casa dos meus avós, o seu Cazuza e dona Josefina dos Anjos. Ao lado do casarão, que sempre foi de cor rosa com detalhes brancos, havia um enorme terreno e um campo de futebol onde os meninos de rua, vizinhos e parentes passavam as tardes jogando bola.

Embora o blog SuperLinda já tenha feito uma postagem sobre os casarões dessa cidade, o assunto é sempre destaque. O registro é motivo de satisfação para todos os tijuquenses. Porém, esse post, é também para reconhecer o trabalho dos responsáveis de manter o compromisso assumido em cuidar do edifício, doado em 2006. 

A construção inaugurada em 1898 é um exemplar da arquitetura ítalo-brasileiro. O antigo prédio, tombado Patrimônio Histórico Estadual em 2002, foi entregue à prefeitura Municipal de Tijucas e abriga o Centro Cultural Benjamim Gallotti. Um verdadeiro monumento, cartão postal e ponto turístico do município.

Foto de Mariza Gonzaga, de costas, com a camiseta do blog na cor azul marinho, escrito o nome superlinda, em cor laranja, em frente ao Casarão dos Gallotti. Arte de Leticia Rieper.

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quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Fotografia: História e vida


Contra fotos não há argumentos. Está é uma frase que uso como um conceito para expressar o que penso sobre fotografia. Ela é a nossa memória. Ela conta uma história. É um documento. Ver fotografia é reviver os detalhes de uma vida com as alegrias e as tristezas. É contar uma trajetória. Delas eu tiro sentimentos, volto a sentir a emoção daquele momento, até mesmo as que desejaria esquecer, mas que vivi. 

Com fotografias revejo amigos que já vejo mais, lembro dos que me fotografaram e outros que fotografei. Viajo pelos caminhos por onde andei sem precisar dizer uma palavra sequer. Quem fotografa lembra mais tudo o que viveu. Os detalhes, os contrastes, as diferenças, as cores, os nomes, e porque não dizer a sensação de sentir os cheiros e os sabores.

Sobre este marco, o primeiro registro fotográfico que se tem documentado, foi feito em 1837, pelo francês Louis Daguerre. Desde então, passou por longos testes até chegar a fotografia colorida e outros tantos processos para se transformar em digital.

O que não mudou até hoje foi a sua função como forma de comunicação. A fotografia é usada para informar atos e fatos de pessoas, lugares. Mais ainda é capaz de registrar expressões, situações e eventos, muitos deles impossíveis de serem descritos em palavras.

A fotografia é uma imagem. Uma verdade de momentos únicos que jamais pode ser repetida. De valor incontestável como prova, está qualificada como matéria de Fotojornalismo, nas grades das faculdades de jornalismo. Pessoalmente, quando escrevo, é das fotografias que faço os melhores roteiros.

No âmbito profissional, a fotografia, amplia as possibilidades de mostrar estudos detalhados e precisos de vários setores do comércio e da ciência. Por outro lado a fotografia ganhou status de arte, apesar das duras críticas dos teóricos da cultura de pinturas. Diziam que a imagem era feita pela máquina e não pelo fotógrafo. Foi só uma questão de tempo. Hoje a arte de fotografar é reconhecida como um potente segmento dentro do mercado fotográfico.

De forma mais informal ela é categorizada como um hobby. A facilidade de fotos feitas por telefone celular e suas câmeras de alta qualidade, fez da fotografia digital um ato popular. Registro de viagens, festas, aniversários, nascimentos e reuniões de amigos e familiares é uma forma democrática de arquivar momentos.

Montagem de foto feita com o registro de lugares por onde viajei: um congestionamento de caminhões na rodovia sem asfalto da Cuiabá/Santarem, a Fifth Avenue em Nova York, placas de um cruzamento indicando a direção e a quilometragem de cidades como Altamira,Brasil Novo, Medicilândia, Uruará, Placas, Itaituba, STM Cuiabá, e placa com s indicação da estrada de Hurghada no Egito. Do lado esquerdo sobre a cor marron os dizeres "Fotografia"em letra laranjada, História e Vida em letra de cor branca.  E ainda em cor branca a inscrição "Contra fotos não há argumentos. Sem elas eu não teria como comprovar nem recordar". #pracegover. Arte: Leticia Rieper 

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quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Assisti à série Lista Negra

 

O que torna esta série, lançada em 2013 e criada por Jon Bokenkamp, um sucesso absoluto de audiência e diferente entre tantas outras opções do mesmo gênero? 

É certo que o segredo de uma série está em prender a atenção com o enredo, fazer uma amarração perfeita, ter episódios com finais impactantes e personagens sedutores. 

Esse último é, sem dúvida, o grande trunfo da série Lista Negra. O personagem principal Raymond Reddington é um sedutor. Red, como passa a ser chamado entre os que convive na intimidade, é um extraordinário contador de história. Enriquece qualquer diálogo fazendo referência a um filme que assistiu, um restaurante que conheceu, a identificar os temperos que estão na refeição servida ou as maravilhas de uma cidade que visitou. 

É detalhista, conhecedor de particularidades. Cita exemplos das experiências vividas com amigos das mais diferentes classes sociais. Faz citações e mostra um controle absoluto mesmo em situações caóticas. No bom gosto pela degustação de vinho ou whisky, ele é magnífico.

Não posso especificar o que mais gostei. Mas não teria sido por pouca coisa que uma série me prenderia por 7 Temporadas, de 152 Episódios, com 45 minutos de duração aproximadamente cada um.

Em qualquer site que você procure a resenha sobre essa série vai trazer a informação de é do gênero espionagem, drama policial e ação. Raymond Reddington, um dos criminosos mais procurados pelo FBI, se entrega às autoridades, promete dar o nome de diversos criminosos e encontrá-los.

Para assegurar a veracidade das informações que possui, ele revela o nome de um criminoso e o plano de sequestro da filha de um militar dos EUA. Comprovado o fato, a série se desenrola em buscas incansáveis pelos nomes que integram a chamada Lista Negra.

Na continuidade, para divulgar outros nomes, ele impõe algumas condições como imunidade legal e segurança pessoal escolhida por ele próprio. Mas principalmente, que todas as tratativas sejam feitas somente entre ele e a agente Elizabeth Keen. 

Tanto o FBI como Elizabeth, mesmo relutantes, passam a agir conforme as revelações de Reddington. A lista contém nomes de políticos, mafiosos, hackers, espiões e criminosos de alta periculosidade. Muitos deles nem mesmo o FBI sabe a existência, mas acaba se tornando a lista dos foragidos mais procurados pelo FBI.

The Blacklist é fascinante. O protagonista é um criminoso que consegue ser cativante e apaixonante. A série se desenrola com vários casos a serem resolvidos, com episódios de emoção, ação e descobertas de grandes segredos por traz dos crimes.

 

Elenco:

Raymond Reddington - James Spader

Elizabeth Keen - Megan Boone

Donald Ressler - Diego Klattenhoff

Tom Keen - Ryan Eggold

Harold Cooper - Harry Lennix

Dembe Zuma – Hisham Tawfiq

Aram Mojtabai – Amir Arison

 

Foto de divulgação da série com fundo branco, escrita "Assisti a série The Blacklist-SuperlLinda, em letras nas cores vermelha e branco, com a imagem dos personagens Raymond Reddington e Elizabeth Keen. Arte: Leticia Rieper 

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sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Li o livro Um Banquete para Hitler

Cheirar, comer e rezar. Esta era a realidade que Margot Woelk ou Magda Ritter, uma das provadoras de Hitler, viveu durante os últimos dois anos e meio da 2a Guerra Mundial. 

Como era servir uma refeição para Hitler? Do café da manhã ao jantar, quais as exigências, os procedimentos, os requisitos necessários, exigidos pelo chefe do Reich?

As revelações contadas neste livro foram feitas, em 2013, pela única sobrevivente desta função de que se tem conhecimento. Aos 95 anos, ela decidiu revelar: "Eu era uma das quinze mulheres que provavam a sua comida, pois o Führer era obcecado com a possibilidade de ser envenenado pelos Aliados ou por traidores dentro do seu círculo pessoal". 

Margot foi em busca de trabalho, junto aos orgãos do governo nazista, e sem saber o que faria, acabou sendo selecionada para o serviço. Ela, assim como outras quinze mulheres, tinham que provar toda a comida que seria servida à Hitler.

Durante o período inicial do trabalho, propriamente dito, elas faziam treinamentos para aprender a detectar cheiros de diversos venenos. Quando da prática, caso não fosse identificado pelo olfato, a provadora da refeição ingeria os alimentos. A partir daquele horário, esperava-se uma hora para ver se havia alguma reação e então a comida era oferecida a Hitler.

Elas viviam diariamente o medo e a sensação de estar sempre fazendo a sua última refeição e se revezavam em cada uma delas. Desempenhavam uma atividade perigosa, talvez fatal, mas por ocupar a função de provadora de Hitler, eram tidas como privilegiadas. Além de viver na segurança do Führer, eram protegidas por ele.

Além disso, tinham fartura nas suas próprias refeições diárias. Uma situação muito melhor do a maioria da população da Alemanha, na época. Era considerado um trabalho de honra por defender a vida do líder nazista, reconhecido diariamente por ele mesmo em atitudes e palavras. 

O livro prende a atenção do começo ao fim. A protagonista vive situações privilegiadas sem perder a noção do horror causado pelo nazismo. Pensamentos que eram compartilhados entre poucos que a rodeavam, e por isso exigiu dela uma vida escondida com os seus segredos, antes e depois da guerra, por uma questão de sobrevivência. 

É um romance. Uma ficção baseada em fatos reais, de quem conviveu no dia a dia de Adolph Hitler. Uma história de quem sofreu conflitos, do medo e ódio à dedicação e proteção ao homem considerado um dos mais perversos da humanidade. "Hitller parecia tão normal, quase como um avô", pensava ela enquanto o comparava com aquele mesmo homem que ordenava a destruição de milhares de homens, mulheres e crianças inocentes.   


"Um banquete para Hitler não conta a vida da senhora Woelk embora eu tenha baseado várias cenas do romance em suas experiências. O romance também não se destina a ser uma biografia velada de sua vida" diz o autor  que assina com o pseudônimo de V.S.Alexander.


Legenda da arte para acesso do deficiente visual. Foto da capa do livro. Fundo esverdeado. Uma mulher com vestido de cor marrom, mangas compridas, detalhes rendados na gola e punhos, uma xícara nas mãos. Em letras de cor branca está escrito o nome do livro e a frase "A morte está servida". Em letras amarelas o nome do autor. #pracegover. 

Arte: Leticia Rieper - Seu blog dá acesso ao deficiente visual?