segunda-feira, 4 de maio de 2020

Um timaço



Em pé da direita para esquerda Roberto, Faísca, Nilton Fagundes (o Gordo), Carlos Ternes e Serginho. Embaixo, agachados, Telmo Cherem, Ademir (o Mãozinha), César Maciel, Jonas, Sergio Ternes e Beto Preto.


Esta é a foto de um timaço, tirada no centro do gramado do Estádio do Tiradentes, na cidade de Tijucas - SC, em um ano próximo a 1960. Um timaço, sim. Alguns deles jovens adolescentes, outros ainda crianças, que não seguiram a carreira, mas certamente tinham como sonho de criança ser um jogador de futebol.

Viviam na época a euforia das Copas do Mundo de 1958 e 1962 ouvidas pelo rádio. A voz vibrante dos radialistas aguçavam ainda mais suas mentes fantasiosas. Imaginação é algo que se tem a perder de vista, sem tamanho, sem fronteira ou divisa. Cada um dá à ela a dimensão que seu sonho alcança.

Não há novidade no que escrevo. Sonho de criança, futebol e meninos é tema por demais explorado. Aqui a ideia vem das lembranças que a imagem da foto resgatou da minha memória. Recordações de pessoas que já não vejo mais. Cada um com suas trajetórias. O que fazem da vida, qual caminho seguiram? A única certeza é a de que são protagonistas da suas próprias histórias.

Como tantos garotos não precisavam nada além de um terreno baldio para jogarem uma bolinha. Mas para estes havia um campo de futebol e camisa oficial para o time.  No imaginário de cada um quem seriam eles? Um Djalma Santos, um Bellini, um Garrincha, um Vavá, ou um Pelé correndo no gramado do Maracanã? Decerto que se sentiam os melhores jogadores do mundo, cada qual fez o seu gol mais bonito, e estavam ali, provavelmente, se sentindo ovacionados pela torcida.

Porém a realidade era bem menor, havia sim quem os observava, mas era uma única pessoa: a minha avó, Mila Ramos. Técnica em enfermagem, formada na capital Florianópolis, coisa raríssima para a época, e parteira de Tijucas. Ela nunca escondeu a preferência que tinha pelo seu primeiro neto, o Roberto. Não foram poucas as vezes em que o menino atravessava a cerca de madeira que existia entre o campo de futebol do Tiradentes e a casa dela, chorando porque não o deixavam jogar no time.

Ao que se sabe, pelas conversas alheias, o piá era um jogador sem talento algum. Embora as palavras usadas pelos amiguinhos, para descrever as qualidades esportivas do garoto, não devessem ser tão delicadas quanto as que escrevo.

Sem poder ver o neto sofrer a discriminação, sofrimento este, muito maior dela do que dele,  tratou de comprar um jogo de camisa completo para ele formar o seu time. Não bastasse isso, escolheu justamente o conjunto do Avaí. Time do coração dele.

Ora, o dono da camisa é também o dono da equipe. Sendo assim, só teria jogo se ele participasse. E para certifica-se que tudo corria bem, dizia em alto e bom tom, a quem quisesse ouvir, que fiscalizava o desenrolar da partida pela fresta da cerca de madeira. 

Enquanto a bola rolava, ela preparava um lanche a base de banana frita como prêmio para todos do plantel. Sem se importar com a vitória ou a derrota, o importante era ver o seu neto em campo. Ao final do jogo ela mesma removia uma das tábuas da tal cerca, fazia os meninos atravessarem para dentro da sua casa e todos se fartavam comendo os bolinhos fritos que fazia.


Este era o time formado pelo meu irmão Roberto, e seus amigos Faísca, Nilton Fagundes (o Gordo), Carlos Ternes e Serginho, em pé na foto, da direita para esquerda. Embaixo, agachados, estão Telmo Cherem, Ademir (o Mãozinha), César Maciel, Jonas, Sergio Ternes e Beto Preto.

O tempo passou e aqueles moleques de camisa azul e branco, provavelmente, veem os seus sonhos de infância, nas crianças de hoje, projetados nos golaços e dribles desconcertantes dos novos craques da Europa. Mudanças geográficas mas os mesmos sonhos de sempre.

A história desse time já fiz menção em outros escritos, e é assunto corriqueiro quando estamos em família ou entre amigos. A foto serviu para definitivamente registrar o caso.

Seu blog dá acesso ao deficiente visual?    Fotos legendas para acessibilidade do deficiente visual. #pracegover




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