sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Enxaqueca: Só quem tem sabe o que é.


 

Ela chega sem pedir licença.  Não escolhe dia, hora, nem lugar. Toma posse do teu corpo. Te causa dor e quem manda é ela. Por algumas horas te coloca numa cama em quarto escuro e de lá você só sai quando ela vai embora. É assim que age uma enxaqueca.

Minha primeira experiência foi quando eu tinha uns 10 anos. No caminho da casa de uma professora, quando fui fazer reforço de aula, senti um leve incômodo no olho. Parecia que havia uma membrana branca e transparente que me impedia de enxergar com nitidez. Na sequencia vieram a dor de cabeça, o enjoo, e a ânsia de vômito. Assustada, e sem intimidade com a professora que me atendia,  me calei. 

Na saída, sem conseguir mais controlar o que saltava do meu estômago comecei a correr para casa. Chorava feito criança, como na verdade eu era, por medo do que estava me acontecendo e pela dor que fazia minha cabeça pulsar parecendo ter o dobro do seu tamanho. Quando entrei em casa, exausta, fui para o quarto, fechei a porta, coloquei um travesseiro sobre a cabeça e dormi. Instintivamente aprendi como fazer quando se tem uma crise de enxaqueca.

Mas, na verdade, eu sabia exatamente o que estava se passando comigo. Esse mesmo mal assolava a vida da minha mãe frequentemente e era comum ouvir os relatos que ela fazia sobre o que sentia nesses momentos. Além, de volta e meia, ouvirmos o pedido para que não fizéssemos barulho porque a mãe estava com enxaqueca. O mesmo comportamento ela passou a ter em relação às minhas crises.

Dessa forma aprendi a sentir na pele o significado daquele pedido e a conviver com esta doença por toda a minha vida. Ela surge sem explicar o porquê. As causas podem ter várias origens: alimentar, emocional, cheiros, calor em demasia, para mim, são as mais comuns. Muitos tratamentos e testes foram feitos e nunca consegui saber qual o motivo certo. A solução foi aprender a lidar da melhor forma possível com respeito à ela e ao meu corpo.

A expressão "só quem tem sabe o que é" cabe perfeitamente ao caso. O corpo não apresenta sintomas, assim como é a febre para uma gripe, um vermelhão para uma alergia, uma tosse, ou coisa parecida. Por isso a enxaqueca, muitas vezes, é considerada uma frescura, quando na verdade ela domina o teu corpo.

Um barulho de tampa de panela na cozinha ressoa como estampido de foguete, a claridade de um dia de chuva entra nos olhos como um facho de lanterna. Ficamos enjoados só de pensar em determinadas comidas. No meu caso, se estiver usando um perfume, num momento de crise, sei que nunca mais voltarei usá-lo. 

Não existe cura, existem remédios que aliviam a dor de cabeça. Ela é imprevisível, e dou graças pelas minhas, que assim como as da minha mãe, não duram mais do que duas horas. Passado este tempo é como se eu não tivesse tido nada. Motivo que leva algumas pessoas a acharem que uso a enxaqueca como desculpa, "só quem tem sabe o que é".

Ela é imprevisível, não respeita teus compromissos, te imobiliza e te faz voltar para casa. Assim como na primeira vez, hoje voltei quando estava a caminho da aula de Pilates. 

Legenda de foto para acesso do deficiente visual. #pracegover. Foto em preto e branco, rosto de mulher com máscara de dormir nos olhos. No card de fundo preto, na parte superior da foto está escrito em letras brancas o título do post "Enxaqueca: Só quem tem sabe o que é". Na parte inferior da foto está escrito SuperLinda.
Arte de Leticia Rieper.

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