quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Colômbia encanta turistas com simplicidade, boa comida e cultura


Vista panorâmica de Bogotá, Colômbia

* Texto originalmente escrito e publicado na REVI - Revista Eletrônica do curso de jornalismo Faculdade Ielusc

Conhecer a cidade de Cartagena das Índias, no mar do Caribe, era um desejo acalentado há mais de cinco anos. O recesso na faculdade de Jornalismo, durante o mês de julho, foi o tempo escolhido para concretizar mais esse sonho de viajante. Para chegar a Cartagena é preciso fazer imigração e uma conexão em Bogotá. Tal parada obrigatória torna impossível não considerar a possibilidade de conhecer a capital colombiana. Assim, ficaram definidos os dois destinos: Bogotá e Cartagena.

São duas cidades completamente distintas: Bogotá, uma metrópole, limpa, organizada, segura e bonita; Cartagena, por sua vez, esbanja colorido, simpatia e calor.
Se você se arrepende do pouco tempo dispensado para conhecer uma cidade, é sinal de que o lugar realmente surpreendeu. Foi assim com Bogotá. Durante muitos anos, a Colômbia foi dominada pelo narcotráfico, mas hoje vive uma nova realidade e renasce para o turismo com excelente serviço de hotelaria, restaurantes, centro histórico revitalizado, cultura e museus. A cidade está bonita e segura.

É a segunda cidade, depois de Londres, com o maior número de construções feitas com “tijolinho à vista”. Essa característica estética da arquitetura colombiana foi um trabalho do arquiteto Rogélio Salmona, de nacionalidade francesa, estabelecido em Bogotá. Depois de ganhar um prêmio internacional de arquitetura, ele comprovou a qualidade técnica e acústica dos tijolos e defendeu o desenvolvimento de uma arquitetura moderna e de um estilo nacional.


O pouco tempo de permanência na cidade não permitiu uma convivência maior com a população que possibilitasse saber detalhes de como os colombianos vivem atualmente, porém a guia turística Bibiana Rodriguez dá algumas noções. “Há muito por fazer, mas a Colômbia passa por um desenvolvimento notável.” Ela se mostra otimista com o futuro do seu país, com as mudanças que o governo vem promovendo para melhoraria de suas vidas. “Hoje é possível comprar um carro e sair com ele”, exemplifica. “Antes, mesmo os ricos que tinha esse poder aquisitivo, não podiam ir às ruas porque eram assaltados”, conta.

Separada, mãe de dois filhos, Bibiana destaca as informações positivas, mas também aponta contradições. Ao mesmo tempo em que o governo disponibiliza transporte gratuito para profissionais de baixa renda, entre eles jardineiros, empregadas domésticas, seguranças, não oferece estudo gratuito às crianças, nem mesmo para o curso primário. “A cobrança é feita de acordo com a estratificação social, identificada por comprovante de residência.” A educação escolar não é obrigatória.

Mesmo assim, ela se mostra satisfeita porque “atualmente, os investimentos em educação são grandes, ao ponto de ser a classe dos professores a mais bem paga”. Segundo ela, os governantes entendem que é investindo na educação que o país se desenvolverá. “Aqui temos muitas Universidades, em sua grande maioria particulares, mas, mesmo nas públicas, há que se pagar mensalidade”, comenta.

A nação que, sob o domínio dos narcotraficantes já foi considerada um campo minado, aderiu, nos últimos 10 anos, à construção de shoppings com investimentos estrangeiros. A Colômbia produz 90% de toda a produção mundial de rosas e cravos tipo exportação. Rússia, Canadá e EUA são seus maiores compradores. Bibiana vai discorrendo sobre as peculiaridades do país durante o trajeto de 50 km entre Bogotá e Zipaquira, mostrando as estufas para o cultivo das flores, que surgem gigantescas à beira da autoestrada.

Atrações em Bogotá

O ponto de referência e direção para quem não quer se perder em Bogotá é a Cordilheira dos Andes. Os endereços são divididos em “Calle” e “Carrera”. A “calle” são as ruas que correm em direção à Cordilheira, enquanto “carrera” são as ruas que seguem paralelas à cordilheira. Elas não têm nome, a identificação é por número e, ao fornecer um endereço, necessariamente você diz o número das duas. O ponto zero da cidade acontece no encontro da calle 1 com carrera 1, por exemplo.

A cidade está a 2.600 metros acima do nível do mar. Ambientar-se é necessário. A pressão realmente interfere no organismo de quem chega, por isso tomar chá de coca é o que convém, segundo os hábitos culturais do lugar. Não escapei dessa experiência, advertida de que esse não é um chá a ser tomado na rua e não deve ser aceito de pessoas estranhas.

Mesmo sem a adição de açúcar ou adoçante, a bebida tem sabor adocicado, suave e gostoso. Servido quente, em uma quantidade próxima de uma xícara de café pequeno, pareceu de efeito rápido. Foi como se “tirassem com a mão” a pressão que incomodava a cabeça. Os indígenas, segundo Bibiana, misturavam folhas de coca com as de fumo para não sentir dor e com outras plantas alucinógenas quando faziam os rituais. “Só a folha é um chá normal, como o de cidreira, ervas, chá de limão, com muito cálcio e bom para a vascularização, não tem nenhum efeito colateral em medidas pequenas.” Mesmo assim ela adverte: “em grande concentração pode ser que haja algum efeito diferente”.

Cerro Monserrate conta histórias de amor

O ponto mais alto e mais visitado de Bogotá é o Cerro Monserrate. A subida ao topo é feita pelas escadas, como peregrinação por quem faz promessa ou por aqueles que sobem para agradecer as graças recebidas em saúde, dinheiro, mas, principalmente, por amor. “Quem sobe as escadarias com o namorado, se aquele for o par perfeito, este se perpetuará, caso contrário, o relacionamento se acaba naquele mesmo dia”, conta a guia turística.

Antigamente havia uma espécie de concurso no qual o homem subia as escadas com a mulher no colo para demonstrar seu amor. Os que conseguissem alcançar o objetivo ganhavam a festa de casamento no templo religioso que há no local. À luz de vela, entregavam o anel de noivado ao som de piano e ganhavam a lua de mel em Saint Andrés ou Cartagena. Dessa tradição origina-se a expressão: “Quem não subiu ao cerro com sua noiva não sabe o que é comer tamal com chocolate”. É uma alusão ao conhecido café da manhã chamado Tamal, servido apenas aos sábados e domingos. 

Com a vida corrida, os colombianos esperam toda a semana para se deliciarem com um bom café da manhã. Esta é uma rotina tão tradicional e importante para eles que chegam a comparar o compromisso de namoro ao café da manhã. Faz-se uma mistura de milho, carne de porco, carne de boi, frango, ervilhas e cenoura, tudo cozido na folha de bananeira. A iguaria é aberta só na hora de comer, tomando café ou chocolate.

 
Rua do Bairro da Candelária
Bairro da Candelária: patrimônio histórico onde reina a cultura

Só no bairro da Candelária, no centro histórico, as ruas têm nomes – dados pelos espanhóis -, sempre relacionados a algum fato ocorrido no local. Calle dos Amigos, a Calle dos Divorciados, a Calle Cara de Cachorro são alguns exemplos. É uma área boêmia, local de muitas universidades, onde o governo isenta do imposto predial quem conserva a arquitetura colonial. Em sua maioria, elas são reformadas por dentro e se tornam grandes e confortáveis residências, enquanto outras são transformadas em museus, teatros.

Há o comércio local, artesanato, muitos restaurantes com comidas típicas, como o ajiaco: sopa de milho com frango e batata amarela (para nós brasileiros é a batata-salsa ou batata baroa). Serve-se com arroz de coco, abacate e um molho de creme mais um de pimenta. A mistura de tudo fica ao gosto do cliente. Outra especialidade muito popular é a Bandeja Paisa: Feijão, carne de frango, linguiça, morcilha, ovo, banana frita, arroz e abacate. Toda comida colombiana vem acompanhada de abacate.
 
Ajiaco
Bandeja Paisa
Por todo circuito, trafega-se por ruas estreitas, um sobe e desce de morros – para desespero de quem está em adaptação à altitude. A vida cultural da cidade se desenvolve ali entre o Centro de Cultura Gabriel García Marquez, o Museu de Botero e o Museu do Ouro. Fernando Botero doou ao governo da Colômbia todo o seu acervo particular para a organização do museu. Suas obras têm como principal característica as formas “rotundas” (de grande volume e redondas). As figuras são gordas, têm a boca sempre fechada, as mulheres despertam beleza e sensualidade. São 123 obras do artista, mais 83 de pintores internacionais, incluindo Miró, Picasso e Salvador Dali.

No centro moderno de Bogotá, vá à Zona Rosa

Na região moderna da capital, rodeado por prédios de tijolinho à vista, está o bairro Zona Rosa, com avenidas largas, canteiros, trânsito denso e muitas ciclovias para atender o grande número de usuários de bicicleta. São tantos que existe até oficina de bicicleta ao ar livre.

Entre esses quarteirões há uma infinidade de opções para comer, beber, dançar e se hospedar. Mas, sem dúvida, é o André’s Carne de Res o mais famoso. Um bar temático inspirado na Divina Comédia de Dante Alighieri. O ambiente, por si só, já vale a visita. Há imagens, cores e objetos dos mais diferentes que se possa imaginar. Uma desordem organizada para encantar o mais exigente decorador. À entrada, estátuas de vacas coloridas enfeitam a fachada do estabelecimento, deixando clara a especialidade da casa. Não há espaço livre sem um objeto que parece ter sido feito especialmente para aquele lugar.

Nesse espaço, dividido em quatro grandes ambientes e decoração especial, cada andar tem um nome: Terra, Inferno, Purgatório e Céu. O cliente escolhe onde ficar. Guardanapos, copos, pratos, talheres, geleiras, coquetéis coloridos, cardápio variado… A garrafa de cerveja vem decorada com asas de anjo e até no jeito de apresentar a conta o André’s faz a diferença. A nota vem num envelope escrito “Bogotá: uma história de amor”, dentro de uma jarra de alumínio cravejada de palavras otimistas.


Catedral de Sal é a primeira maravilha da Colômbia

Zipiquirá, a 50 km da capital colombiana, guarda aquela que é considerada a primeira maravilha da Colômbia e a oitava maravilha do mundo moderno: a Catedral de Sal. A cidade, localizada a 2.650 metros acima do nível do mar, mantém temperatura constante o ano todo, entre 14 e 16 graus.

Durante o trajeto, Bibiana mostra as belas construções nas encostas dos morros paralelos à estrada. A jovem explica que estão totalmente proibidas novas obras, seja para pessoas ricas ou pobres. “É uma medida de proteção ao ambiente.” Também não é permitido mexer na vegetação nativa que existe no canteiro entre as duas vias asfaltadas, por isso não ampliam a autopista. “Isso acabaria que com a água que brota das fontes naturais que sobem da terra”, completa.

A catedral, que mereceu a visita do Papa Francisco em 2017, levou dois anos para ser construída. Contou com 127 mineiros, dirigidos pelo engenheiro Jorge Enrique Castelblanco Reyes e o arquiteto Roswell Garavito Pearl. É a maior igreja subterrânea do mundo e agrega o poder da fé à racionalidade da engenharia. Os mineiros começaram a escavar a mina e, logo na entrada, construíram um altar para a virgem. Nunca aconteceu nenhum acidente e todos acreditam que isso tenha sido resultado dos pedidos de proteção dirigidos à virgem quando entravam para trabalhar todos os dias.

Enquanto a mina estava em atividade, os trabalhadores construíram ali a sua própria capela onde, até hoje, são celebradas as cerimônias eucarísticas, incluindo os batizados e casamentos – somente de familiares dos mineiros. Para esse ato de fé, utiliza-se água de sal tirada dali. Uma singularidade desse local são as imagens de santos doadas por peregrinos. Lá estão Santa Rosa de Lima, padroeira do Peru e a primeira doação recebida, a virgem de Luján, da Argentina. A terceira doação veio do Brasil: Nossa Senhora Aparecida.

O retorno à superfície é feito por uma escada e a guia conta, fazendo graça, que a dificuldade da subida significa o número de pecados que a pessoa tem para pagar. Dizem também que antes do casamento o homem deve fazer toda a peregrinação sozinho pela via-crúcis, porque depois do casamento é a mulher que o fará por toda a sua vida. E, como sempre se expressa após contar as várias crendices populares, Bibiana repete: “vai vendo…vai vendo”.

As crenças não ficam só nisso, Antes de chegar à nave central há três portas a escolher para entrar. Sem saber, opta-se por aquela que é o caminho escolhido para a vida. Quem escolhe a porta do lado esquerdo tem a alma mais pecadora; a do meio para as pessoas que pecam e rezam igualmente; e a terceira, a porta da direita, para almas mais puras.

Todo o templo é guardado por lembranças e imagens de significados incontestáveis, feitas especialmente para a obra e todas têm lugar de destaques. No altar da virgem do Rosário, protetora dos mineiros, a imagem está à frente de um painel com tantos furos quantos foram os trabalhadores da construção da catedral, feitos com as suas próprias ferramentas. Porém, há outras peças relevantes e a principal delas é a cruz da nave central com de 16 metros de altura, escavada na rocha de sal. O efeito de luz dá a ilusão ótica de que ela tem a forma cilíndrica e de estar suspensa no ar. Nesse local, de acústica irretocável, no mês de setembro, são realizados concertos com a orquestra Filarmônica da Colômbia e da Itália.

No chão, no centro da nave central, o escultor Carlos Enquique Rodriguez Arango esculpiu no mármore a Criação do Homem, uma homenagem a Michelangelo. Outra obra que enriquece o ambiente é um presépio gigante esculpido pelo italiano Ludovido Consorte, e a escultura réplica de Pietá feita pelo artista Miguel Dopó, nascido em Zipiquirá.

Enfim, Cartagena das Índias
 
Palenqueras de Cartagena
Aquele que seria o destino número um escolhido, tornou-se o último dessa jornada. Para Cartagena das Índias estavam planejados quatro dias de passeio muito bem aproveitados.
Cartagena é linda, é colorida e se faz simpática. Tem no ar o cheiro das frutas vendidas pelas alegres palenqueras espalhadas pela cidade. Com seus vestidos multicoloridos, turbantes mais ainda, em contraste com a pele negra, não é difícil conquistar a simpatia dos turistas. Muitos nem compram as frutas, mas não deixam de pagar para posar ao lado delas nas fotos. Sem qualquer constrangimento, postam-se diante das câmeras e abrem a saia rodada que seguram pela barra, assim como os francos sorrisos.

As ruas são povoadas por vendedores ambulantes e as praças cheias de bancas ocupadas por feirantes. Fazem tudo o que a técnica de venda lhes permite para conquistar a simpatia do turista. Oferecem os produtos dizendo em fluente portunhol: “mais barato do que na 25 de março”. Puxam assunto querendo adivinhar de onde você é: São Paulo? Rio de Janeiro? E te seguem oferecendo camisetas, colares de coral, cigarrilhas e charutos. Chapéus, muitos chapéus, um item de primeira necessidade para o escaldante sol colombiano. Mas também há que se ter cuidado, pois sempre há alguém para lhe oferecer “algo mui exclusivo e da melhor qualidade…”
 
Rua de Cartagena
O que Cartagena tem de linda, tem também de quente. Muito quente. Com temperatura de 33 graus e sensação térmica de 40 graus, exige que se busque proteção de ambientes fechados com ar condicionado, sempre acompanhado da gelada cerveja colombiana.

Artistas de rua, artesanato e música tradicional se misturam aos jovens que improvisam letras de músicas em ritmo de rap, como fazem os repentistas brasileiros. Um contraste com o som da música clássica produzidas pelas cordas de um violino em uma rua mais silenciosa. Ali, com o instrumento na mão, estava um homem venezuelano, trabalhando com o objetivo de conseguir recursos para trazer sua família que deixou naquele país.

Embora o centro nervoso de Cartagena esteja demarcado pelos 13 km de paredão de pedra construídos entre os séculos XVII e XIX, há muito o que se ver além das muralhas. Bem próximo dali, o Bairro Getsemani é uma extensão das casas e sacadas coloniais da cidade, de onde melhor se pode observar o cotidiano dos moradores.

Revitalizado, de ruas extremamente limpas, como toda a cidade, o bairro tem a característica de ser boêmio, cultural, com inúmeras opções de hostel, hotéis boutique. Os preços mais populares em hospedagem lhe conferem o apelido de “bairro dos mochileiros”, mas, além do charme, tem importância histórica.
 
Igreja da Santíssima Trintade
Foi na praça central do Getsemani, onde está a Igreja da Santíssima Trindade, que em 1811 se iniciou o movimento popular que terminou com o domínio espanhol na região. O antigo bairro já foi centro de prostituição e drogas, hoje se faz o local ideal para passear à noite, apreciar a arte do grafite, comer em excelentes restaurantes ou sentar em uma das suas deliciosas cafeterias.

Cartagena sempre foi e continua sendo o maior centro turístico da Colômbia, mas também guarda edifícios modernos, centro comercial e financeiro de uma grande cidade.

 
Rua de Cartagena
Monalisa de Botero
Vista Panorâmica de Cartagena - contraste da arquitetura colonial e a moderna.
Foto noturna da praça com bares e restaurantes de Cartagena
Rua do Bairro Gestsemani colorida com as cores da Colômbia
Torre iluminada da Catedral Santa Catarina de Cartagena


Reportagem completa da viagem à Colômbia publicada no site da REVI
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