quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Setembro chegou e com ele seis meses de pandemia - Parte 2

 


O emocional em pandemia.

O tempo bom continuava zoando com a nossa cara. As semanas passavam e com elas os fins de semana sem poder ir para rua. Não lembro de ter vivido uma sequência tão longa de dias de sol, próprios para a praia, quanto naqueles meses de março e abril de 2020. Foi um período de alertas de economia de água dada a escassez por falta de chuva. Algo inusitado para uma cidade como Joinville, onde o tempo chuvoso predomina. A estiagem parecia querer nos lembrar de que não deveríamos reclamar tanto dos dias de chuva.

Sem falar das encantadoras noites estreladas. Estudos sobre o meio ambiente e condições climáticas mostravam que a redução do trânsito de veículos baixaram os índices da poluição do ar e com isto o céu exibia a sua magnitude estelar. Em tempo em que olhamos mais para o celular do que para o céu, passamos a dar importância em procurar as tais "estrelas que riem", segundo o Pequeno Príncipe.

Passados os primeiros dias de isolamento, quando achávamos que seriam os únicos, me dei conta de que não havia sido contaminada. Cumpri o protocolo de ficar dentro de casa, sem contato com o mundo externo. O sentimento que deveria ser de alívio me causou pânico. Era uma contradição, mas real. Eu estava salva e com o mundo inteiro em pandemia, sair à rua significava me contaminar. Senti verdadeira paúra. Chorei de medo diante desse pensamento. Mais do que nunca deveria me preservar. A euforia acabou, a motivação para ficar em casa se foi e a esperança pela retomada da normalidade também.

Por sorte, naquela manhã conversei, por telefone, com um médico geriatra, amigo de Curitiba. "Estou me sentindo muito mal", disse enquanto relatava o que sentia, e ele me incentivou a sair e dar uma caminhada na quadra, tomar sol. "Vai ser mais difícil curar você de depressão do que do coronavírus", afirmou enquanto conversava sobre outros assuntos para desviar a minha atenção.

Naquele dia tudo parecia corroborar para agravar o meu estado emocional. Foi divulgada a notícia da morte, em Joinville, de um empresário de 68 anos. Embora não o conhecesse, sabia quem era e a associação da idade dele com a minha foi desastrosa. Pior ainda, saber do internamento na UTI, em estado grave, de um amigo dos meus filhos. Foi aterrorizante. A pandemia estava muito mais perto de nós do que imaginávamos. Daí cadê coragem para sair na rua mesmo que por recomendação do amigo médico. 

Com os filhos Vinícius e Bernardo falava todos os dias. Fiquei mais preocupada com o Bernardo, que por ser médico veterinário mantinha o trabalho e contato com as pessoas na clínica. Enquanto o Vinícius continuava com as suas atividades de dentro de casa. Com a sensibilidade à flor da pele, naquele dia, não tive coragem de telefonar e só mandei mensagem. Sabia que iria chorar e deixá-los preocupados. Passado algum tempo a videoconferência foi a forma mais fácil de comunicação visual e de conversa. Do almoço do dias das mães não abrimos mão. Comemoramos em família.

Nesse meio tempo comecei a perceber que os piores dias, para mim, eram as segundas-feiras. Acordava chorona, abatida, desanimada. Mais uma semana iniciava e eu não podia sair, não podia fazer as atividades de trabalho, ou as atividades físicas diárias. Não conseguia, como ainda hoje, ter disposição para me exercitar com aulas online. Acordava por volta das 7h30 tentando manter uma rotina seguindo orientações dos médicos e psicólogos. Mas essa rotina de acordar e não ter o que fazer não era a minha e por isso era uma situação que tanto me abatia.

Mais do que nunca a interação com terapeutas passou a ser considerada como de primeira necessidade. Foi quando a minha terapeuta começou a me dar atendimento por telefone. E isso foi muito importante, eu estava realmente entrando em um processo de grande tristeza. Enquanto conversávamos eu chorava e como sempre ela me trazia à realidade. "Suas preocupações tem fundamento" dizia ela, "mas não podemos nos afundar".

Quando relatei o medo de sair de casa, ela me perguntou o que eu teria para fazer na rua que não pudesse ser adiado. Respondi: nada. "Então é uma possibilidade que você tem de ficar em casa, diferente de tantas pessoas que não podem e estão se arriscando".Ela me  acalmava.

Sobretudo, a tristeza do isolamento era a reclamação que mais se ouvia. O clima que pairava no ar era denso. Todos carentes da presença física dos filhos, dos netos, dos amigos. Começava a correr notícia de pessoas com síndrome do pânico. Recordo de ter falado com uma pessoa que me perguntou: "Que dia é hoje?". Isso me impactou.

As notícias chegam por vários canais.

O que mais alterava meu estado de ânimo era estar reclusa para evitar a disseminação do vírus e assistir de dentro de casa ele se alastrando por toda cidade, para não falar do mundo. Informações chegavam a mim e não só pelos noticiários. Uma prima, que mora na Espanha, outra nos EUA, amiga da Alemanha, todas relatavam a pessimista realidade que estavam vivendo por lá. Um horror.

A orientação do psiquiatra Primo Paganini, em entrevista a CNN, naquele momento, me pareceu razoável: "Não levem as preocupações para daqui a 1 ou 2 meses, concentrem-se no hoje, no máximo amanhã". Ele se referia ao tempo, e eu decidi limitar também ao espaço da minha casa, minha família e não levar nossas preocupações para muito longe de nós. Um, dois meses, naqueles início já era uma previsão de futuro muito grande. Ninguém podia imaginar em cinco ou seis meses como estamos até hoje.

Nessa época, já estava me sentindo enganada, e hoje resta a comprovação. Foi muito dinheiro desperdiçado, usado indevidamente e para corrupção. As orientações eram para que deixássemos de assistir aos noticiários. Nossa atenção, passou a se concentrar nos boletins oficiais gerido pelo então Ministro Luiz Henrique Mandetta. A diferença entre as notícias e os informativos, não sei. Um era mais aterrorizante do que o outro, mas acreditávamos em Mandetta, que no decorrer da pandemia, tornou-se uma grande decepção.

Mudança de comportamento.

Foi um período em que fiz uma campanha para que conversássemos mais por telefone do que por troca de mensagens de WhatsApp. Reconheço que não obtive a adesão que pretendia. O hábito de teclar está mais enraizado nas pessoas do que elas imaginam. Mandar figurinha tornou-se mais eficaz e rápido. Um só emoji diz mais do que muitas palavras. Mesmo assim com algumas pessoas eu utilizei mais o telefone ao contrário de mandar mensagem.

Foi com um telefonema que a história da Hildinha, uma amiga de 78 anos,  não poderia ser resolvida se tivesse ocorrido por mensagem. Aliás, um recurso que ela não se habitua a usar.

Como tantas outras vezes, passamos horas ao telefone e ela me contou, muito incomodada, que não conseguia entender como uma caixa de fósforo apareceu em cima da mesa da cozinha. "Ninguém entrou aqui em casa, eu não uso fósforo para nada, como isso veio parar aqui" e completou: "Estou muito 'aperreada' com isso" disse ela com o seu forte sotaque nordestino.

Meu conselho foi para que ela jogasse a caixa no lixo imediatamente. Porém, inconformada, sem uma explicação plausível e resistente a minha recomendação, disse que "não, até descobrir como aquilo foi parar na mesa". Estamos num processo de confinamento, se jovens estão confusos, imagina os idosos. Não desacredito em nada do que a minha amiga contou, porque sei que ela é 100% lúcida. Mas confusão mental qualquer pessoa pode ter.

Na dúvida, entre se ela se confundiu, se foi abduzida dentro de alguma crença espiritual, se brincadeira ou não, fiquei preocupada e dei outra opção. Pedi que tirasse todos os palitos de dentro da caixa e colocasse dentro de um copo com água. "A caixa vazia", continuei "deixe no mesmo lugar em que você a encontrou, assim você continua o trabalho mental de procurar a explicação que procura". Ela assentiu, mas até hoje não sabe o que aconteceu.

Na continuidade o distanciamento foi perdendo o seu rigor. Mesmo aquelas pessoas que se mantinham distantes das academias, dos restaurantes, e do convívio com amigos, passaram a ter contato pessoal com a família. Muito antes disso, contrariando as orientações, passei a visitar amigos que sabia estavam se cuidando tanto quanto eu. Em busca de espaço para me movimentar aceitei o convite do Ricardo e passei a ir para a fazenda. Lá eu tinha com quem conversar, lugar para grandes caminhadas e boa companhia.

O que estava ruim para nós, ficou pior quando, por decreto, o prefeito de Joinville voltou a determinar algo como um lockdown para o idoso. A proibição de frequentar qualquer espaço público veio com o Decreto 38.520/2020 e provocou muitas manifestações de desagrado. "A saída que que temos é agir na clandestinidade": dizíamos tentando manter o bom humor e nos encontrando, em grupos de no máximo três pessoas, nas nossas casas.

Mais tempo longe das atividades rotineiras e com alguns quilos a mais, segui o conselho de uma amiga e deixei de lado as confortáveis calças largas e as do tipo legging usadas no dia a dia. Ela, cumprindo expediente em home office, confessou: "Mesmo dentro de casa só uso calça jeans. Elas me deixam em estado de alerta sobre o meu peso." Dito e feito. Foi uma grande mudança, inclusive sobre o meu emocional. Andar desarrumada não faz parte da minha rotina.

Lives, a alegria do povo

Ah! Como elas foram importantes. Verdadeiras companheiras dos fins de semana. Começaram mansas e despretenciosas e se tornaram mega eventos. O único objetivo era arrecadar fundos aos necessitados da pandemia. Para isso bastava, um violão e um microfone, no máximo uma mesa de som. Aos poucos se transformaram em shows grandiosos capaz de suprir o ganho dos músicos, da equipe técnica e mais do que qualquer coisa, em cachês milionários para os artistas.

As primeiras das quais tenho lembrança foram as do Bruno & Marroni e Gusttavo Lima. Realizadas, ao estilo fundo de quintal, na churrasqueira a beira da piscina de suas belas moradias. Sem maiores cuidados, se apresentavam de bermuda e chinelo e verdadeiramente se sentindo em casa, beberam muito e por isso receberam duras críticas diante de tal comportamento.

Após este infortúnio, ajustada a proibição de ingestão de álcool durante as apresentações, os grandes nomes de empresas de bebidas, entraram firme no patrocínio e se adonaram dos cenários sobre o palco, como moldura para os artistas. Assim começou um grande desfile de importantes nomes da música brasileira a cantar para cada um público sentado no sofá da sala.

Em casa, de verdade, assistimos Sandy & Junior, Os Menotti, Marília Mendonça, Fafá de Belém, Ivete Sangalo. A medida que nomes famosos se organizavam para as suas lives, outros iam anunciando eventos futuros, em dias e hora diferentes de forma que uma não atrapalhasse a outra. A primeira grande live, estruturada como um evento foi a dos Amigos: Xitãozinho e Xororó, Leonardo, Zezé Di Camargo e Luciano. Lembro até, da situação de constrangimento de Xororó diante das palavras descontraídas e alguns palavrões do irreverente Leonardo.

O que não faltou nessas lives, no papel de acompanhante, foi o vinho, o espumante, o gim e a cerveja. Muita cerveja, para a alegria das lojas de conveniência e entrega de delivery. Bebemos muito. comemos muito e engordamos muito. Toda uma alegria convertida depois em problema. Muitas vezes tive uma espécie de ressaca moral. Coisa mais degradante beber sozinha. A euforia inicial era boa a conscientização no dia seguinte, não.

Uma vez que eu acompanhava a programação das lives, enviadas pela minha sobrinha Taís, tratava de repassar para os grupos de amigas. Lembro de certa vez, ao fazer a indicação da apresentação de Sérgio Reis, e em outra ocasião a de Diogo Nogueira, ambos enchendo de alegria os nossos solitários almoços de domingo, ter ouvido de uma amiga: "Minha mãe disse que não sabe o que seria dela sem as indicações das lives que a "Quel" faz". O comentário nos fez rir, afinal é ela quem cuida da mãe dia e noite, mas sou eu que a salvo.              

Impossível enumerar todas as lives. Algumas aconteciam pelo YouTube, outras pelo Instagram, Facebook. Houve uma explosão de transmissões ao vivo sem precedentes. Quem poderia imaginar que um dia iríamos assistir shows ao vivo sem pagar ingresso. Inspirado nos cantores outras aconteceram e não só de música, foi uma derrame de palestras, aulas, compra e venda, consultas médicas, reuniões governamentais, empresariais. A pandemia fez o mundo se transformar em realidade virtual.

Legenda de foto para acesso do deficiente visual. Montagem de foto com calendários de março a setembro, relógios e eu representando o blog olhando para as imagens com o sentido de ver o tempo passando. Cor predominante: roxa. Arte de Leticia Rieper.

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