domingo, 19 de maio de 2013

Vó Mila


Nós morávamos em Tijucas (SC) uma pequena cidade, onde não há quem não tenha conhecido a Da. Mila, a tia Mila ou a Da. Emília Ramos.

Ela era enfermeira obstetra, a parteira da cidade. Profissão a qual se agarrou, para sustentar seus dois filhos, após o falecimento de seu marido.

Presença marcante, personalidade forte, porte físico grande, muito bonita, elegante, sempre bem vestida.

Na profissão ela foi brilhante. Cerca de 10.000 crianças nasceram em suas mãos, numa época, em que os partos eram feitos em casa, pela parteira.

Todos os dias ela almoçava na nossa casa, que ficava no caminho, entre o Posto de Saúde onde trabalhava e a casa onde morava. Próximo ao meio dia, sempre ouvia meu pai dizendo: Pode servir o almoço, porque a Nina chegou.

Somente meu pai se dirigia a ela chamando-a de Nina, não sei porque razão.

Sentados à mesa, minha mãe, invariavelmente perguntava-lhe: E como foi sua noite?
Isto porque todas as noites, alguém ia buscar minha avó em casa para fazer partos.

Fosse onde fosse, ela se levantava de madrugada para atender suas pacientes. O transporte podia ser carroça, carro de boi, automóvel ou a pé, ela nunca se negava. Com frio, com chuva, lá ia ela. E não foram poucas as vezes que ela fez mais de um parto por noite.
Por seus relatos, ficávamos também sabendo, se o parto havia sido fácil ou difícil, se nasceu menina ou menino, se uma só criança ou gêmeos. Eram muitas também as histórias, da parturiente, do marido, da sogra ou da mãe. Casos engraçados, alguns tristes.

Quando minha avó faleceu, durante o seu velório apesar da tristeza, muitas vezes rimos, porque toda pessoa que vinha para nos dar os pêsames, nos contava uma história que conhecia. Ou era do seu próprio parto, ou do parto da vizinha, ou da cunhada, de uma tia...

Hoje na cidade, existe avenida com seu nome, sala cultural num asilo de idosos, e qualquer homenagem à personalidades da cidade, seu nome está incluido. Não faltarão a ela eventos comemorativos a passagem de seu centenário de nascimento no dia 19 de maio.

Como avó, ela também cumpriu seu papel no verdadeiro sentido da palavra.

Coisa boa era ir para a casa da Vó Mila!

Com as três netas meninas, ela brincava de boneca, de ir à manicure (ela fazia nossa unha da mão e do pé) e a melhor das brincadeiras na qual ela era especializada. Brincávamos de grávida (com travesseiro amarrado na barriga), íamos na D.Mila fazer exame.

Ela nos colocava deitada na mesa para exames que havia em seu consultório, "ouvia o coração do nenê" com seu estetoscópio
Estetoscópio de madeira
 de madeira e nos dava o diagnóstico, dizendo que o bebê estava muito bem, quando deveria nascer e quando deveríamos voltar para novo exame. risos.

Quando seus bisnetos nasceram, ela já com a idade mais avançada, não trabalhava mais como parteira, mas dos cuidados pós parto das netas e do primeiro banho até o umbigo no nenê cair, era sempre ela quem cuidava.

Vinha para a nossa casa,  cuidava de nós no período chamado "resguardo", ao qual os antigos, davam muita importância, fazendo canja de galinha, e minguau de maizena polvilhado de canela (humhumhum) de sobremesa.

Não escondia a preferência que tinha pelo seu primeiro neto, Roberto, meu irmão.
Ela comprava a camisa para todo o time futebol de crianças, desde que o Roberto pudesse jogar; no final do jogo todos iam para sua casa tomar o lanche que ela fazia.
Fora o dinheirinho, (rsrsrs) que ela sempre colocava no bolso dele para o picolé.
Ciúmes infantis e brincadeiras à parte, ela foi para todas nós uma avó maravilhosa.

A vó Mila com o bisneto Vinícius
A vó Mila com o bisneto Bernardo




Vó Mila na foto com o neto Roberto (o preferido rs) e o bisneto Rodrigo, a segunda foto com o bisneto Ricardo.




Fernanda Reali propôs homenagear as mães durante o mes de maio, com o tema  "AVÓ". Fiquei mais motivada ainda, com a coincidência de poder contar a história da minha avó, no dia e ano em que ela completaria 100 anos, 19 de maio de 1913.

10 comentários:

  1. Raquel,
    o que me fascina nessas mulheres, é que sem precisar queimar sutians, elas sabiam exatamente quais eram seus espacos no mundo e verdadeiramente, sabiam ser enérgicas sem perder a docura.
    Felizes somos nós, que tivemos o privilégio de durante algum tempo, te-las por perto e usufruirmos desse amor, aprendendo um pouco do muito que transmitiram.

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  2. ela gostaria de saber que aqui na Inglaterra os partos ainda são feitos por parteiras! : )

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  3. Não pude conhecer minhas avós, mas tive umas emprestadas que foram fantásticas!
    Parabéns a Dª Mila. Luz eterna à sua linda alma.
    Bjs.

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  4. MInha linda Raquel, belíssima tua homenagem à vò Mila. Com certeza, lá no céu, ela está rodeada de Anjos e vendo as coisas lindas que seus netos estão preparando para ela. Ontem fomos todos ao cemitério e estava muito bonito. Rezamos , acendemos velas, e seu túmulo estava recoberto de flores.
    Estou comovida com tantas homenagens, inclusive a da Câmara Municipal de Tijucas, onde ela era rainha.
    Muito lindo tudo e ela deve estar feliz, só com saudades de nós.

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  5. E eu, metida como sempre, também a chamava de Vó Mila. Parabéns neta Raquel, linda mensagem. Lembranças inesquecíveis. Bjsss

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