quarta-feira, 20 de junho de 2018

Copa de 70: sempre viva para quem viveu

Seleção do Brasil e da Itália em campo - Copa de 70

Eu tinha 15 anos quando meu pai comprou o primeiro aparelho de televisão "a cores". Um único, para toda a família. A divulgação da primeira Copa do Mundo a ser transmitida a cores e em tempo real pela televisão fez ele adquirir um com a concordância e o compromisso de controle nos gastos de toda da família.

Uma possibilidade da qual nem todos os brasileiros puderam usufruir. A chegada da televisão colorida, no Brasil, ainda era uma novidade e acessível a poucos. O que mais se comentava, já naquela época, bem me lembro, era a corrupção de políticos, aumento dos preços de combustível e dos alimentos. Nada mudou.

Mas a verdade é que em branco e preto ou no colorido, o brasileiro viu, torceu e gritou "GOOOLLLL" tantas vezes quanto a bola "estufou o véu da noiva". Transbordaram de alegria vendo o que os críticos vieram a chamar de "futebol arte". 

Não era somente mais um título. Era o primeiro tricampeonato da história. E quando a busca por este se confirmou veio acompanhado da difícil tarefa de concorrer com outros dois bicampeões. Além do Brasil, Itália e Uruguai entraram na disputa pela posse definitiva da taça Jules Rimet, que seria concedida ao primeiro país a ganhar três títulos da competição.

No meu mundo de adolescente não cabia entendimento técnico de jogadas, de lógica ou de eficiência de passes corretos, cabia apenas reconhecer pelos resultados obtidos que estava se concretizando o surgimento de uma lenda: a emblemática seleção brasileira de futebol de 1970.

Para bom entendedor, bastava olhar e ver que havia em capo craques a desafiar qualquer técnica ou lógica - e esses craques o Brasil tinha de sobra. Uma copa que contava com a participação de muitos outros campeões, times que tinham em comum o desejo de vencer - o que só fez valorizar ainda mais a equipe canarinho.

Aurtur Lima, em junho de 2015, quando a Copa de 70 completou 45 anos, escreveu: "... na final contra a Itália, mostrando que o time era uma verdadeira constelação e não apenas um bando de estrelas brilhando separadamente. A belíssima história do melhor time em uma das melhores Copas se encerrou na patada do capitão Carlos Alberto que quase estourou a rede, e explodiu os 90 milhões em ação à época".
Tickets de entrada no Museu do Futebol
Recentemente em uma viagem a São Paulo fui conhecer o Museu do Futebol no Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho, motivada pela Copa do Mundo que agora acontece na Rússia. Naquele dia o local recebia a vista de centenas de crianças e jovens acompanhadas de professores. O que poderia ser motivo de tumulto me despertou prazer em ver a valorização da história e da cultura deste país. É importante que tenhamos este conceito. Futebol faz parte da vida e da história do povo brasileiro.

E a prova maior disso está retratada lá dentro. É só entrar e olhar ao seu entorno. Música, foto, personagens e as histórias das copas do mundo. Nem de todas fomos campeões, mas ganhamos em todas elas. Acompanhar esta exposição é acompanhar a história do Brasil.
Acervo digital em formato de taça

Os expositores digitais, do acervo do museu, distribuídos pelas salas, vibram revestidos de imagens brilhantes tal qual os troféus representados em seu formato de taça. Painéis luminosos com fotos de nossos craques, de todos os tempos, parecem soltos numa altura acima de nós, como realmente são na especialidade que lhes confere o título atual de tetracampeões. Sim, para chegarmos aqui, tivemos que perder muito, cair e levantar várias vezes.

Fui atrás da indicação da copa de 1954, ano do meu nascimento, mas foi na de 70 que eu parei e me emocionei. Essa definitivamente é a minha copa. A primeira em que eu realmente vibrei, cantei, festejei, me encantei.
Diante do expositor da Copa de 70

Entre as placas, uma dizia: "Brasil, 1970. É tempo de regime militar, de Transamazônica, de boom econômico, de repressão e de futebol". O que mais agride nesta citação é sem dúvida "regime militar"e "repressão". Não há o que esconder, faz parte da história - assim como faz parte da história o lema "Brasil Ame-o ou Deixe-o".
Placa com os dizeres do Brasil em tempo de regime militar

Junto a esta placa estão Os Mutantes, Caetano, Gil, Bethânia, Geraldo Vandré; todos "cantando e seguindo a canção; somos todos iguais, braços dados ou não". Uns censurados, outros presos, cantavam as suas dores pelo regime autoritário, mas também festejavam as vitórias dos brasileiros na copa. Todos fazendo parte da narrativa histórica do Brasil e do futebol.

Eu confesso: pouco ouvia falar do regime militar na época, talvez porque não houvesse em nossas relações familiares pessoas que tivessem sofrido ou morrido pelo regime de repressão. Meus pais eram contra o comunismo, o que liam, ouviam, sabiam ou pensavam guardavam para si - como era o recomendado. Naturalmente, de acordo com os seus princípios passavam para nós a segurança de estarmos sendo protegidos pelo Exército Nacional. E assim nos sentíamos.

Eu sou do tipo que torço pelo Brasil em Copa do Mundo, independentemente dos problemas que permeiam nosso país. Ouvir brasileiros que dizem não torcer "porque o Brasil é um país de corruptos" me remete à crônica "O mais belo futebol da terra" de Nelson Rodrigues: "Eis a opinião dos brasileiros sobre os outros brasileiros: 'Não temos caráter'. Se ele fosse mais compassivo, diria: 'O brasileiro é um mau-caráter". Vocês entenderam? O mau caráter tem caráter, um caráter mau, mas tem. Ao passo que, segundo meu colega, o brasileiro não tem nenhum. Pois bem, No dia seguinte há o jogo e, no seu primeiro lance, Garrincha sai driblando russos e quase entra com bola e tudo".

Na relação com a crônica de Nelson Rodrigues fica a mensagem: todos somos corruptos. Brasileiro corrupto não torce por brasileiro corrupto, mas em dia de eleição vota em um deles.

Mas afinal, por que a Copa de 70 foi marcante para mim? Foi porque a Seleção Brasileira mostrou ao mundo o que é jogar bonito e vencer. Vencer e vencer todas as partidas. Porque quando a bola caía nos pés de qualquer jogador, fosse quem fosse, podíamos começar a gritar porque era gol certo.

O capitão Carlos Alberto parecia ter sido escolhido por quem sabiamente tinha a visão de que a taça viria para cá. Tamanha elegância não seria desperdiçada em vão.

Eu vi o país entrar para a história dos mundiais de futebol sob a liderança de Gerson, jogando bonito com Rivelino, e inteligente com Tostão; com jogadas eternizadas de Clodoaldo, Brito, Piazza, Everaldo; com gols deles todos mais os de Jairzinho, que junto com o técnico Zagallo sagraram o Brasil tricampeão mundial.

Sim, era Brasil. Era 1970 e eu vi nossa seleção conquistar a copa do México,  na última participação do único jogador de futebol a tornar-se tricampeão mundial de Copa do Mundo. O grande Pelé é sem definição. 
Painel suspenso digital com Pelé
Painel suspenso dos jogadores

Painel suspenso incluindo foto da jogadora Marta

Vários jogadores em foto panorâmica do expositor suspenso

Jovens diante dos painéis

Painel digital com personalidades políticas e culturais da históricas do Brasil
Charles Miler, o inglês que trouxe o futebol para o Brasil

Homem ouvindo o jogo pelo radinho de pilha

Diante do expositor da Copa de 54


Fotos aproximadas do expositor da copa de 70



Capa do jornal O Globo comemorativa da Copa de 70

O SuperLinda entre as camisas da seleção  de 1958 e 2018

2 comentários: