segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Darci Albino - Todos perdemos um pouco.

Darci entre dois carros, BMW branca e Mercedes preta  sob a placa da Lavação Otto Boehm. Foto pessoal do FB.

Seis horas da manhã ele já estava ali. Com sol, frio, chuva ou calor, o trabalho na Lavação Boehm começava a funcionar. A roupa de trabalho era sempre igual, bermuda, camiseta, chinelo. Às vezes ele chegava dirigindo seu carro, às vezes pedalando a sua bicicleta. 

E foi abraçado à ela que ele se foi desta vida na terra. Darci Albino, 62 anos, lavador de carro, ciclista,  morreu atropelado por um caminhão, no último domingo, praticando o esporte que mais gostava. Uma tragédia que impactou todos os que o conheciam.

Nenê, era assim que eu o tratava, outros o chamavam de Capixaba. Apelidos, podia ter muitos, mas nome apenas um: Darci. Por que era assim que sua mulher Oraci o chamava.

Da vida deste homem, sei muito pouco. Porém, da educação e da gentileza que ele dispensava a qualquer pessoa, sou testemunha. Em qualquer hora do dia que alguém fosse até ele, para deixar o carro, para pedir uma informação, para dar um simples "oi, tudo bem?" recebia em troca o seu sorriso.

Além do sorriso, ele era um cara do bem. Um amigo que temos em comum, há cerca de uns três anos, me contou que levou o carro para lavar e comentou com ele que eu estava morando no prédio ao lado. Ele confirmou e detalhou que, "agora, ela esta bem" e disse que sempre me via pela manhã caminhando com a minha cachorra. Isso, porque Nenê sabia de uma situação pessoal e difícil pela qual eu passava na época.

Depois que tive conhecimento desse fato, passei a me sentir de certa forma protegida por ele. E não só por ele, Oraci muitas vezes parou o serviço para conversar e me aconselhar. Nunca houve nenhuma relação de convívio entre nós, além do deixa carro, pega carro, fosse ali na lavação, ou quando me levava ou me entregava no trabalho. Mas sempre havia conversa entre nós. Tanto com ela quanto com ele.  

Ainda não éramos vizinhos, e já o conhecia. Sempre me diziam: Deixa lá no Nenê, é de confiança, o carro fica com cheiro de novo. E assim fiz por muitos anos. Quando entregava a chave, ele já falava: "o lixo que não é lixo, não é para tirar", se referindo aos cadernos, papéis, garrafas de água vazia reaproveitáveis. Sem esquecer, o dia em que ele me entregou um pacote esquecido sob o banco e perguntou se não havia sentido falta de uma linguiça na feijoada. 

Mas, não era só isso. Nunca tirei de dentro do carro, coisas como pendrive, documentos, óculos, computador, toca fita, desde o tempo que a gente tirava a parte da frente e guardava num estojo. O Nenê se fez presente na minha vida e já estou sentido a sua falta.

"A morte dilacera o coração", disse Oraci, quando me abraçou.

O casal Darci e Oraci. Foto do arquivo pessoal do FB de uma noite de Natal.


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2 comentários:

  1. Raquel,bonitas palavras, você conseguiu expressar o sentimento de muita gente que o conhecia. Darci não lavava nosso carro, ele era nosso amigo, a pessoa que tinha a chave do portão de nossa casa, sempre sorridente, fazendo o comercial como digo á Oraci deixara saudades.

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