terça-feira, 29 de dezembro de 2020

2020 - Um ano infernal para olhar com amor.


Arte montagem feita com uma foto minha, usando blusa roxa e jaqueta preta,  sobre imagens de cor laranjada que lembram o fogo. Sobre a cabeça os chifres do inferno e sobre os olhos um coração vermelho. No alto do card está escrito 2020 em vermelho e o título do post em preto.
 

Não importa se foi bom ou ruim a virada do ano vai acontecer. Com este texto quero juntar cacos e ideias soltas, mostrar que nem todos os desacertos do ano foram por conta do coronavírus e que 2020 não foi de todo mau para muitas pessoas. Se o seu Ano Bom estiver dentro dos critérios de viajar, festejos com a turma, compras desnecessárias e passeios em shopping, definitivamente o seu ano está fadado a ser jogado no inferno. E o melhor que pode acontecer é você rever esses conceitos.

Um dia dessa semana, desci o elevador junto com outro morador. Um homem, com idade entre 40 e 50, usando máscara, assim como eu. Ele vestia bermuda e camiseta, visivelmente suado e cansado. Nos cumprimentamos, e, talvez para justificar o seu estado, disse: "estou fazendo mudança, mas queria mesmo era estar na praia". Eu comentei: "Mas que bom terminar um ano como esse de casa nova. Isso é uma maravilha". Surpreendentemente ele falou: "O ano, para mim, não podia ter sido melhor".

Em se tratando de moradia nova, na sequência, fiquei pensando: de fato, este ano foi bom e não só para aquele morador. Muitos venderam, outros compraram. Há, inclusive, quem esteja comemorando a compra do primeiro imóvel e concretizando o sonho da casa própria. Festejando, assim, o ano de 2020. É possível que muitos não se lembrem de coisas boas, em qualquer sentido, que possam ter vivido. As ruins, alardeadas pelas mídias, foram tantas, e, infelizmente, essas marcam mais do que as boas.

Foi então que me atentei. Acostumados a sentar em frente à televisão para ver as retrospectivas do ano, a pergunta é: você já fez a sua própria? Mais do que nunca, uma retrospectiva pessoal pode salvar o seu 2020. Você lembra das promessas feitas no réveillon passado, quando em meio aos borbulhantes espumantes, distraídos, nem nos preocupamos com uma tal pneumonia que já estava matando na China? Eu não. Não lembro nem de uma coisa, nem de outra. 

Tanto faz por onde inicie essa imersão, porque ao final você vai ver que é o dinheiro, a saúde, e a família, o foco de todos nós. Vou começar pelo dinheiro, por um motivo: serei rápida. Sim, muitos tiveram perda significativa neste setor. Eu também, mas não foi por conta da pandemia e nem foi a primeira vez. Em outros anos, em outras ocasiões, no trabalho, isso já ocorreu. Não posso culpar 2020 por isso.

Da mesma maneira, tive perdas irreparáveis de pessoas que morreram. Nem todas por Covid, e nem só neste ano. Em compensação outras tantas nasceram para comemorarmos a vida. Não sei a quantidade de parabéns que enviei, pelas redes sociais, aos novos papais. Muito se alardeou sobre a quantidade de separações de casais. Mas quantos deles vêm postergando essa atitude, há anos, e agora encontraram um bom motivo: novamente ela, a pandemia. Em contrapartida, os casamentos ou decisões de morar juntos foram aos milhares. Que vivam felizes para sempre.

Mais ou menos na metade do segundo semestre fiz uma rápida pesquisa entre meus contatos de WhatsApp com uma única pergunta: "Quem pode responder de maneira rápida e objetiva o que de fato e forma substancial mudou em sua vida desde que começou a pandemia"? Foram 280 pessoas. Homens e mulheres de faixa etária diferentes e de diversas categorias profissionais. Educação, saúde, aposentados, profissionais liberais, comércio, jornalistas.

Algumas respostas me chamaram a atenção. Com extrema sinceridade alguns responderam simplesmente "nada" ou "não sei dizer". A grande maioria destacou a forma como passou a olhar o próximo, a família, a liberdade, reflexões sobre valores da vida. Incrível a quantidade dos que passaram a cozinhar. Em uma loja de utensílios domésticos, de Joinville, a atendente comentou que nunca venderam tantas panelas. As pessoas, em casa, fizeram desta prática uma solução para as suas necessidades e prazer.

No que diz respeito à família, a resposta de Silvio Melatti, professor e jornalista, foi distinta. Por ser homem, por estar habituado à rotina fora de casa e pela demonstração de sensibilidade. Ele disse: "Por incrível que pareça, e contra todos os relatos que tenho ouvido, para mim melhorou o convívio familar". E acrescentou uma explicação: "Tenho duas filhas adolescentes, e a relação não era das mais harmoniosas. A pandemia baixou o nível de estresse (correria, compromissos, logísticas, etc), serenou os ânimos e abriu diálogos mais densos".

Continuando a minha auto retrospectiva: Não pude viajar e reclamei disso o ano inteiro como se esse fosse o único ano da minha vida que eu não tivesse viajado. Não fosse a pandemia, eu também não teria ido já que precisei readequar meu orçamento. Além disso, em outros tempos não saí por ter de trabalhar, por ter filhos pequenos, por ter marido que não gostava de viajar. Agora estou aqui, assim como tantos outros colocando a culpa no coronavírus e querendo assassinar 2020.

Ainda na pesquisa, o assunto educação, alunos e pais foram os mais focados. Nesse aspecto nada sofri. Já não sou aluna, nem professora e não tenho filhos em idade escolar. Mas reconheço que essa categoria sofreu e teve que realmente se adequar. Penso que a aprendizagem dos alunos ficou prejudicada, no mínimo, a das crianças de até 10 a 12 anos. Nessa relação algo parece bem definido: Professor entendeu que ensinar 30 crianças dentro de uma sala de aula é infinitamente mais fácil do que em aula online. Enquanto os pais, compreenderam o valor do tempo que a criança passa na escola e que eles próprios não servem para ser professores dos seus filhos.

Enquanto a dúvida sobre o ano letivo se disseminava ruidosamente em grupos, reclamações fervilhavam nas ouvidorias. Uma colega do Paraná, que prefere não se identificar, conta do susto que tomou quando viu seu nome no rol da Ouvidoria da escola que trabalha. Depois de passar longos minutos explicando para uma mãe as dificuldades do momento, leu que "com a fulana de tal não adianta falar porque ela não faz nada". Sem nenhuma solução imediata, a professora Deisemara Sebold, da  rede municipal, ligada à Secretaria de Educação de Joinville, relata sobre os dias que trabalhavam além da meia noite. "Tudo era novo, nos pegou de surpresa. Foi assustador tanto para os alunos quanto para nós. Tivemos de adequar o novo sistema, na base do erro e do acerto", disse ela.

Sobre essa questão, Vânia Regina Piske, 40 anos, respondeu na enquete: "Tive de aprender a dar aula para o Eduardo, 8 anos. Para mim foi uma mudança total, porque não sou professora". Nesse final de ano ela me surpreendeu com uma postagem, no Facebook, onde mostrou o boletim do filho e escreveu: "Download concluído com sucesso. Ano difícil e de superações. Tive de aprender a ensinar, enfim, eis o resultado de todo o esforço. Dedicação dos pais, alunos, professores e colaboradores. Agradeço imensamente a Escola Municipal Professora Laura Andrade por todo apoio e 2021 que nos aguarde, porque estamos mais fortes". Isso é orgulho, é auto estima elevada, é otimismo e reconhecimento ao trabalho de todos da escola.

Para alguns, foi a mudança na relação de trabalho o que mais impactou. Neste item, os jovens foram os que mais se manifestaram. Mesmo sendo mais familiarizados com a tecnologia ainda assim sentiram falta do contado pessoal.

No início da pandemia quando tudo parecia ruir aos seus pés, Jéssica Ramiro Pereira, jornalista, 23 anos, mudou de emprego e viveu uma situação inusitada: "Comecei no trabalho novo já fazendo home office sem conhecer direito meus colegas". E por isso, continua ela, "é tudo um pouco frustante porque dificultou meu aprendizado sobre os processos da empresa e da minha função". Confessa que tem dias que é bem difícil lidar. Do ponto de vista emocional, Jéssica fala que "minha ansiedade aumentou comparada ao ano passado. Tive várias crises de irritabilidade nos últimos meses". Associa isso ao fato de não poder viver normalmente e por não estar entre as pessoas de forma física.

Enquanto a professora e jornalista Marília Crispi de Moraes cita a mudança radicial de aulas presenciais e o reflexo na saúde. "A diferença que mais senti foi no trabalho remoto, pois não há contato presencial com alunos e colegas. Videoconferências sucessivas cansam" diz ela. Como consequência sentiu a visão piorar nesses últimos meses e acha que o problema está relacionado com o tempo excessivo diante das telas, por isso já marcou consulta no oftalmologista.

Dominício de Freitas Neto, do ramo de restaurantes, diz que está trabalhando três vezes mais e ganhando duas vezes menos. Enquanto Leonardo Fernandes, da área de comércio de produtos de construção comemora o aumento nas vendas. "Bati a meta pessoal duas vezes", diz ele. Porém do ponto de vista emocional se diz fragilizado por não saber o dia de amanhã. De mudança e coragem, a de Gustavo Tapioca, não pode deixar de ser mencionada. Há anos trabalhando de carteira assinada, o sonho de muitos desempregados, ele pediu demissão para empreender no comércio de lojas de conveniências. Encontrou na pandemia a possibilidade de ampliar o negócio que era explorado pela esposa. Hoje, ele trabalha mais, tem outras preocupações, mas está muito mais satisfeito.

Frustração por planos não realizados existe dentro de todos nós. Mas foi o comentário de Gustavo Schwabe que marcou como um desabafo: "TUDO! Desde janeiro tínhamos começado uma vida itinerante, deixando casa e empregos para correr o mundo só com uma mochila nas costas. Neste primeiro ano iríamos correr o mundo cruzar a América Latina, começamos pelo Uruguai mas quando chegamos na Argentina a crise explodiu, a quarentena começou e estamos sem poder sair de Bariloche desde então".

Gustavo e Amanda Santo pediram demissão dos seus empregos formais, vinculados à empresas de mídia jornalística, para viver uma nova vida e não uma aventura. No projeto, o que não faltava era trabalho. Trabalho para se manterem, para alimentar a curiosidade, a necessidade de descobertas e informação que há dentro do espírito de jornalistas, que são. Nos meses que ficaram lá, criaram a revista Caminhos do Mundo. Aqui nesse link está a última edição feita em Bariloche. Um trabalho especial, emocionante, sem ser piegas, de amor, com roteiro e dicas imperdíveis para qualquer viajante. Tendo que dar continuidade no tempo parado, a contradição da expressão é verdadeira, eles disseram sem medo: "Nossos planos tiveram que ser todos adaptados a essa nova realidade, seguimos com o plano de viver na estrada, mas agora sem saber quais ou quando serão os próximo destinos. Mais do que nunca, vivemos hoje um dia de cada vez aprendendo a valorizar as coisas que realmente importam...".

E assim o ano passou. Tanto para quem aprendeu quanto para quem estagnou. Aos jovens a letra da música que diz "quem espera que a vida seja feita de ilusão" entrou "goela abaixo" fazendo sentido mais cedo do que poderiam imaginar. Quanto aos adultos, eles já sabem que o mundo gira, pandemias vêm e vão e que "estabilidade é um sonho" como disse um amigo, acometido de covid, neste domingo. Ele se referia aos altos e baixos da vida, seja por dinheiro, por saúde, e até mesmo encrencas familiares.

Fica o aprendizado de que até ele, o aprendizado, terá de ser renovado com outras mudanças que virão porque a vida é mutante. Neste ano, eu confesso, chorei, me assustei, tive medo, quis brigar com o mundo. Não adiantou espernear. 2020 me nocauteou dentro de casa. Mas também me beijou, me abraçou, me deu assunto para escrever e a possibilidade de eu chegar aqui e lhe desejar Feliz Ano Novo. Por fim, assim como em todos os anos anteriores, não vou assistir as retrospectivas dos jornais e reportagens televisivas. Lamentação não leva ninguém a lugar algum. Não olhe para trás. Mais uma vez afirmo que inverter meus pensamentos se tornou minha especialidade.



Legenda de foto para acesso do deficiente visual. #pracegover.  Arte de Leticia Rieper.

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Dados da pesquisa : 

Total de 280 pessoas receberam a minha pergunta. 

Destes 81 eram homens e 199 eram mulheres.

42 Homens com menos 60 anos não responderam

13 Homens com menos de 60 anos responderam.

17 Homens com mais de 60 anos não responderam.

9  Homens com mais de 60 anos responderam.

80 Mulheres com menos de 60 anos não responderam.

40 Mulheres com menos de 40 anos responderam.

54 Mulheres com mais de 60 anos não responderam.

25 Mulheres com mais de 60 anos responderam.



 


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