segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Amor no táxi - #CrônicaDeSegunda



Todas as noites quando saio da faculdade, por volta das 22 horas, chamo um táxi para ir para casa. Já fiz os cálculos desse custo e o resultado foi satisfatório no meu caso. Uma passagem de ônibus circular custa R$ 3,80. Quatro passagens de ônibus custam R$ 15,20, o que representa a média usada por uma pessoa num dia. Eu não ando de ônibus porque minhas distâncias percorridas entre a casa, trabalho e faculdade, distam em torno de 2 km um do outro, o que prefiro fazer a pé. O trajeto da faculdade até minha casa é de cerca de 3,5 km. Já tarde da noite e cansada, me permito usar esse mesmo valor em uma única vez, em prol do meu conforto e segurança. Sendo assim, aciono pelo aplicativo e após a chamada em cinco minutos tem um carro me esperando em frente à faculdade.

Como é normal, sempre rola uma conversa entre motorista e passageiro. No princípio me perguntavam: “A senhora é professora?”, ao que eu respondia: “Não, sou aluna”. Com um pouco de admiração, por não ser comum alguém na minha idade (61) estudar, o comentário que se segue é sempre de elogio, incentivo. Um ou outro completa contando da sua vontade de também voltar a estudar, ou que conhece alguém que está fazendo algum curso.  

A quantidade de vezes que faço uso desse serviço tem sido tanta que muitos taxistas já me conhecem e nem o endereço preciso mais informar. Quando entro no carro o comentário é: “Boa noite, como foi a aula hoje?”, e seguimos em frente. Porém também acontece, claro, de virem motoristas novos, como foi o caso esses dias. Um homem de uns 30 a 35 anos chegou e eu, que havia me perdido no horário conversando com um colega à saída da aula, recebi a ligação no celular: “É o motorista do táxi, já estou aguardando”.

Acelerei o passo, entrei no carro pedindo desculpas pelo atraso, e ele gentilmente disse não haver problema. “Esse eu ainda não conheço”, pensei. Indiquei o endereço, ele quis colocar no GPS e eu falei:
- Não, precisa não. Suba pela Doutor João Colin, entre na Benjamim Constant que eu vou orientando.

No meio do caminho seu telefone tocou, ele atendeu pelo viva voz e não teve como eu não ouvir a conversa. Do outro lado uma voz de mulher dizia:
- Oi, amor, você já está vindo?
- Sim, querida. Só vou deixar um passageiro e já vou, respondeu ele, com uma voz tão doce quanto a dela. E rapidamente se despediram.
- Então tá... beijos, te amo.
- Também te amo, querida, já estou chegando.

Não falei nada, mas gostei do que ouvi naquele rápido diálogo e fiquei com meus pensamentos voltados para o quanto é bom ouvir e sentir aquelas palavras. Naquele momento, pensei: “hummm... legal esse cara”! E não estava enganada.

Parada na frente de casa, ele me perguntou se eu pagaria com dinheiro ou com cartão.
- Com cartão, eu avisei no aplicativo.
- Aiii, senhora, esqueci a maquininha, tá lá no ponto.
- E agora?, perguntei. Estou sem dinheiro nenhum aqui.
- Não? Então não tem problema. A senhora me paga outra hora.
- Espera um pouco, eu vou entrar e vejo se tenho algum dinheiro em casa pra te pagar.

Foi quando começou o segundo problema. Procurei na bolsa a chave de casa e me dei conta de que estava sem ela.
- Moçooo, e agora... nem a chave da casa eu tenho para entrar!

Apressada, nervosa, agoniada espalhei o conteúdo da bolsa no banco em que estava sentada. Sem sucesso continuei
- Pera aí... deixa eu pensar o que vou fazer...

Pacientemente ele interveio:
- Senhora, não tem problema, veja aí o que é melhor fazer, eu espero.

A primeira e desesperada atitude foi ligar para uma amiga, que estaria saindo da faculdade, mais ou menos naquele mesmo horário, para me ajudar. O telefone tocou até o fim e ela não atendeu. “O que vou fazer?”, me perguntava insistentemente. Sem chave para entrar em casa, sem dinheiro para pagar o táxi, já 22h30 e eu não podia ficar no meio da rua.

- Moço, eu não sei nem o que te dizer, mas preciso de ajuda. Minha mãe mora aqui perto e eu tenho que ir para lá, para não ficar aqui no meio da rua.

Imediatamente ele se virou para trás e disse:
- Não se preocupe, vou levá-la. Onde é?

Fui indicando o caminho e ao mesmo tempo conversando para saber como faria no dia seguinte para ir até ele e efetuar o pagamento. Quando chegamos ele me entregou seu cartão com o número de telefone e explicou onde era o ponto de serviço.

A essa altura, eu, que já sabia o seu nome, desci e lhe disse.
- Alan, não sei como agradecer tanta gentileza e atenção. Amanhã sem falta eu te procuro para pagar.

- Não se preocupe, quando puder a senhora me paga.
E lá seguiu ele. Meus pensamentos voltaram-se mais uma vez à conversa que ouvi no carro entre Alan e o seu amor. Cheguei a pensar que o que ele queria mesmo era me largar em qualquer lugar para ir correndo ao encontro da amada. Mas, quando no dia seguinte eu o procurei para pagá-lo, mais uma vez, ele com o mesmo tom de voz gentil, afirmou:
- Sim, mas pode deixar, não se preocupe, qualquer hora passo por aí e procuro a senhora para me pagar.

Pessoas envolvidas em amor geram gentilezas.

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