sexta-feira, 28 de julho de 2017

Rússia: estudante de jornalismo conta suas impressões sobre o país da Copa

Esse é um texto publicado originalmente na REVI - Revista Eletrônica da Faculdade de Jornalismo Bom Jesus/Ielusc
Por Raquel Ramos



"Sol da meia noite" na Praça de Tallinn, na Estônia

Em uma viagem podemos não entender tudo o que ouvimos, nada do que lemos, mas jamais esqueceremos o que vimos e, principalmente, o que sentimos. Essa é uma frase que costumo repetir sobre o que eu penso a respeito de viajar. Em relação à Rússia, mais do que nunca, ela se encaixa perfeitamente. O idioma russo é escrito em alfabeto cirílico, originário do grego e do hebraico com 33 letras. Veja, por exemplo, como é escrever ALFABETO RUSSO: РУССКИЙ АЛФАВИТ. Mesmo sem entender o idioma, parti, numa viagem feita em três etapas, para conhecer mais dessa rica cultura.
 
"Sol da Meia Noite" em Helsink na Filândia
Primeiro rumamos para Helsink, na Finlândia e ali as surpresas já foram surgindo, a começar pela travessia de Ferry Boat para Tallinn, na Estônia. Esqueça todas as experiências que você possui com transporte em balsas brasileiras... Entramos em um navio quebra-gelo, meio de transporte normal para aquela região de rios congelados pelo inverno rigoroso.

A surpresa maior nessas duas primeira cidades foi vivenciar o chamado "sol da meia-noite". Não existe noite escura como estamos acostumados a ver. O fenômeno acontece nos meses de junho e julho nos dois polos, Norte e Sul. A fantasia, em torno desse fenômeno, fica por conta do filme com o mesmo nome, estrelado por Mikhail Baryshnikov, em 1985, e o livro Noites Brancas, de Dostoiesvki.

O sol se põem, mas não desaparece. Às duas da manhã, quando você pensa que vai escurecer, o dia começa já está amanhecendo. É  "um dia que não escurece, uma noite que nunca chega", como descreve o  instagram de @racielneto.

De Tallin a São Petersburgo a viagem foi feita de ônibus. Na  fronteira com a Rússia, o controle é bastante rigoroso. É necessário passar por três guaritas para conferência dos passaportes. O procedimento é tenso. Antecipadamente fomos avisados para descer e tirar os óculos de sol diante do funcionário que olha demoradamente para a foto do passaporte e para a pessoa, a fim de comparar se não há fraude. Em seguida, confere a autenticidade do passaporte utilizando vários tipos de scanner.

Uma das passageiras, antes de embarcar no Brasil, havia extraviado seu passaporte e viajou com um emitido com urgência na Polícia Federal. Este era de cor diferente dos demais e tinha uma inscrição que dizia "Provisório". A brasileira teve que responder a várias perguntas, misturando seu inglês e alemão e deixou gravada uma explicação sobre o ocorrido. Enquanto isso, outros soldados entravam  dentro do ônibus para a vistoria. É desses momentos em que você sabe que não fez nada de errado, mas pensa: "e se eles "invocarem" com alguma coisa?"  

Ali, na fronteira, recebe-se uma ficha de autorização para permanência no país, que deve obrigatoriamente ser apresentada no aeroporto quando da saída. A recomendação é: perca o passaporte, porque dá para fazer outro na embaixada, mas não perca essa ficha.

Enquanto tudo isso acontecia, eu só pensava no quão austero e tenso devia ser passar numa fronteira como essa em tempos de guerra, ou quando ainda o país era governado pelo sistema comunista. Enfim, com tudo resolvido continuamos até chegar a São Petersburgo.


Um mergulho na cultura russa

A visita a São Peterburgo durou três dias, para conhecer a cidade dos palácios de Pedro, O Grande, e Catarina, a Grande, o famoso Museu Hermitage e fazer alguns passeios. A partir dali o percurso até Moscou foi feito por cruzeiro fluvial, um programa chamado “Por entre rios e lagos na rota dos Czares”.

Nesta terceira etapa, passamos por quatro pequenas cidades do interior da Rússia, a passagem por 16 esclusas, que são represas ou câmeras de concreto, com duas enormes comportas de aço nas extremidades.  Elas formam um canal de passagem para possibilitar a navegação quando há grandes desníveis no rio. Uma se abre para entrar a água e elevar o nível e então fechar a outra. O funcionamento é semelhante a um elevador aquático. Sem essa arte da engenharia, não seria possível navegar nesses rios. 

Depois de passar a entrada no famoso Rio Volga, chegamos ao destino. Durante a maior parte desse trecho, que durou sete dias, o efeito da noites brancas continuou nos acompanhando. Sentar nos decks do navio ou nas salas envidraçadas para apreciar aquela visão, que a cada dia parecida nova, era incansável.   

O navio utilizado era pequeno, com capacidade para 200 passageiros. Havia confortáveis ambientes de bar, biblioteca, sala com wifi, embora de pouca potência, e atividades envolvendo os passageiros com a cultura russa. Foi ali que tive a oportunidade de ter algumas aulas do idioma russo, aprender mais sobre a história do país. Também participei de coral e dança folclórica e, claro, não faltou a degustação da tradicional vodka. Tudo orientado por guias que falavam espanhol. Essas experiências jamais serão esquecidas. Numa viagem em que você só conhece pontos turísticos, não dá para perder a menor oportunidade de se envolver com a cultura do povo. Um mundo tão diferente do nosso, um lugar onde você pode sentir na pele a real sensação do que é ser analfabeta. É impossível ler, escrever ou entender uma única palavra. 

Foram três aulas de russo, quando nos foi apresentado o alfabeto cirílico, algumas poucas frases de cumprimentos e agradecimentos. As letras das músicas foram escritas em alfabeto latino, de modo a representar a pronúncia das palavras. Quem conseguiu escrever um diálogo com as frases ensinadas recebeu um diploma. Vale a participação, a esportividade e a vontade de se integrar.


De tão pequenas, duas cidades visitadas são chamadas de aldeias. Mandrogi e Kizhi foram restauradas para se tornarem pontos turísticos desse trecho do cruzeiro. Mandrogi tem 150 habitantes e Kizhi, 80. Fora os moradores permanentes, muitos deles provenientes da Sibéria, diariamente deslocam-se das cidades maiores, ao seu entorno, cerca de 200 pessoas para trabalhar nessas aldeias. As edificações construídas em madeira, tora a tora, encaixadas sem pregos ou parafusos e o artesanato das matrioscas são os principais atrativos. Trabalho lindo, minucioso, verdadeira arte de pintura.

Casas de madeira são muito comuns na Rússia e, por isso mesmo, o país sofreu com muitos incêndios provocado pelo material de fácil combustão.


Fazer o percurso entre as duas maiores cidades da  Rússia, São Petersburgo e Moscou, é como andar sobre águas rodeadas por florestas de pinheiros.  O transporte da madeira é feito por embarcações no rio. Chamou nossa atenção o desmatamento, bastante visível nesse trecho.

Em Goritsy e Uglish há belas construções, igrejas, campanários e um comércio de roupas de linho para o verão e de casacos e gorros de pele. Belas peças a bom preço.

Nas metrópoles, há calefação em todos os ambientes, edifícios e ônibus. A guia comentou que ninguém sobrevive sem calefação, mas no interior, as casas eram construídas com fornos de lenha, em formato quadrado, para aquecimento, e também serviam de cama para crianças, idosos ou enfermos.

Esse passeio no inverno, quando, os rios e lagos ficam congelados, é feito de trem. É preciso roupas e sapatos adequados para sobreviver. No interior, muitas pessoas são pobres e não têm condições de comprar material e equipamentos  contra o frio. Por todo o percurso veem-se belas casa à margem do rio, acampamentos onde a população aproveita seus poucos dias de verão.



Mudança de regime trouxe sentimentos contraditórios

A Rússia possui um história forte, rica e poderosa, sobrevivente de muitas guerras. É um país em transformação.

De fato, o povo russo é muito fechado. Não há como fugir dessa ideia inicial e que considero perfeitamente compreensível. Eles têm somente 40 dias de sol por ano. No inverno rigoroso, quando o dia escurece às 16 horas, todos dão muito valor às poucas horas do dia em que há luz, mesmo sem sol. Além disso, viveram o sistema opressor do comunismo, quando não podiam manifestar sua ideias, e os jovens ainda sofrem essa influência na educação recebida em casa.

Sobre a diferença  entre viver no socialismo ou no capitalismo, Lomakina de Leiva Svetiana, guia turística de Moscou, opina: "Es todo lo mismo". Segundo ela, o capitalismo era uma grande esperança para os russos. Tinham a ilusão de que seria muito melhor. Svetiana conta que seus avós preferem o comunismo, pois se sentiam mais seguros; os jovens preferem o capitalismo.

Esse sentimento contraditório das pessoas em relação aos dois regimes, parece muito presente.  Ekatarina Petrovna Ivanyuskina, também guia turística, diz que antes eles tinham o básico, o que precisavam, mas não tinham liberdade. Embora tenha um sentimento de nostalgia, por ter vivido uma infância feliz, prefere o capitalismo. Afirmou também ter sido muito dura a sobrevivência nos primeiros anos, sem emprego e trabalho para os mais velhos.

O Kremlin é uma fortaleza. Há vários kremlins por toda a Rússia. Em Moscou, o palácio do governo russo está localizado dentro Kremlin de Moscou, formado por suas  muralhas, na Praça Vermelha. E sobre a Praça Roja, há também uma curiosidade, que eu desconhecia. O nome Praça Vermelha não se refere às construções rubras, mas porque “rojo”, em russo antigo, significa bela, portanto, é a Praça Bela.

Dizem os russos que, se eles são o maior país em território, têm a maior capital e a maior população do mundo, precisam ser a maior nação. E quem tiver a oportunidade de visitar a Rússia não terá dificuldade em entender o sentido desta frase. É só olhar em volta.  Todos os monumentos históricos e igrejas vêm de sucessivas reconstruções. Destruídas por sucessivas guerras, as edificações parecem intactas, como se fossem novas. Isso me faz crer que Moscou se renova não só para o Mundial de Futebol do próximo ano, mas para todo o sempre.


 
Entrada no Rio Volga

Praça Vermelha de noite - Moscou

Salão dourado do Museu do Hermitage

Palácio de Catarina, a Grande

Pintora de matriosca

Igreja em tora de madeira em Hirzh


Acesse o link da reportagem para ver mais fotos.







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